quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Moedas locais

Hans Memling - O homem da moeda (1477-1479)

Desenvolve-se, um pouco por todo o mundo, a prática local de produzir moeda própria dentro de uma pequena ou média comunidade (ver aqui e aqui, e também aqui). São moedas complementares da moeda corrente e têm uma vigência comunitária. Se compreendermos o dinheiro à luz da linguagem, essas moedas podem ser consideradas como uma espécie de dialectos locais, com os quais os membros de uma comunidade se entendem. 

Estas moedas complementares são uma manifestação comunitarista (não confundir com comunista, pois há comunitaristas de direita e de esquerda), como bem se pode ver na reportagem sobre a de Bristol (Inglaterra). São estratégias, para as comunidades mais pobres, de entrada no mundo da troca económica, e para as mais ricas, formas de defesa da economia local contra a erosão imposta pelos mercados de uma economia globalizada. 

A economia globalizada, dirigida pelos imperativos da eficácia e da eficiência, sendo universal, acaba por não pertencer a lado algum, sendo-lhe completamente indiferente o rasto de destruição comunitário que pode deixar, e que deixa muitas vezes, atrás de si. Ora, estas moedas locais reforçam a protecção da economia local, dão-lhe um sopro de vida e podem representar um dique contra os interesses dos grandes grupos económicos.

Mas não haja ilusões. Não se trata de abrir um processo de substituição da moeda corrente por moedas locais, nem tão pouco do prelúdio de um retorno à Idade Média e a mercados puramente locais. Trata-se, antes, de complexificar o sistema e abrir novas oportunidades que o desenvolvimento da globalização tem fechado. Por outro lado, é preciso perceber que os imperativos de eficácia e de eficiência económicas continuam a ser válidos nessas comunidades. Não se trata de substituir o capitalismo eficiente pelo socialismo ou por um capitalismo ingénuo e ineficiente, mas de o democratizar, abrindo novas possibilidades de criação de classes médias e de criadores de bens e de emprego (aquilo que o nosso governo designa por empreendedores, embora não faça a mínima ideia como eles podem aparecer, mas isso é outra história). 

Depois da derrota do socialismo e da economia planificada, o papel da esquerda política não deverá ser o de pensar como se dá vida a um cadáver mas como democratizar o acesso das pessoas à economia de mercado. Acesso tanto como consumidores como quanto produtores (sejam proprietários ou assalariados). Os dados do jogo mudaram e os problemas também mudaram. Estas iniciativas locais são, apesar de serem ainda um fenómeno frágil, respostas interessantes e que merecem reflexão e ganhos de eficiência económica e social.

Um programa político de esquerda não pode, hoje em dia, querer substituir a iniciativa privada de alguns pela iniciativa do Estado, mas criar condições políticas para uma efectiva democratização da iniciativa dos indivíduos e das comunidades. Não deve, porém, esquecer que este localismo não tem sentido em si mesmo, mas apenas como estratégia de integração dos indivíduos e das comunidades na vida global da humanidade.