sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Alucinações



Há em certos sectores a crença de que apenas nos resta voltar aos níveis de vida que tínhamos nos anos oitenta do século passado. Esta ideia de retorno é uma ilusão. Não é possível voltar atrás para uma situação onde nos encontrávamos e, depois ensinados pela experiência da história, fazermos agora tudo direito. Para além do tempo não voltar para trás, três coisas impedem a concretização dessa ilusão.

Esse lugar que existia nos anos oitenta já não existe. O mundo estava dividido entre dois blocos (a queda do Muro de Berlim dá-se em 89), a globalização, tomando o padrão actual, era rudimentar e os governos europeus ainda tinham margem de manobra na gestão das suas moedas e das suas políticas. Os anos oitenta não serão nunca mais recriáveis.  Em segundo lugar, a população portuguesa era mais nova. A crise demográfica já se anunciava, com a queda abrupta da taxa de fecundidade (cai de 2,11 filhos/mulher, em 1979, para 1,42, em 1991), mas ainda não era visível nem socialmente sentida. Também o envelhecimento da população, devido à queda da referida taxa e do aumento da esperança de vida, não era socialmente percepcionado como problemático. Por fim, nos anos oitenta, os portugueses viviam num clima de esperança. Sentiam que a adesão à CEE poderia fazê-los entrar numa Europa civilizada, instruída e rica. E pelo menos ricos os portugueses tinham a esperança de virem a ser. Essa esperança que tinha lugar nos anos oitenta morreu.

Sem o mundo dos anos oitenta, velhos e sem esperança, o que nos resta? Resta-nos um governo que tem a sua ilusão temporal. Não sonha devolver Portugal aos anos oitenta nem ao tempo do marcelismo. O governo sonha com o Portugal dos anos quarenta do século passado, com uma economia de guerra, onde a pobreza de milhões os obrigará à mais pura e acintosa submissão, à aceitação de qualquer coisa por quase nada. Uma economia de guerra? Sim, uma economia que resulta não de um conflito bélico, mas da destruição sistemática do pacto social, da perseguição dos trabalhadores por conta de outrem, da implosão das empresas e do esforço de milhares e milhares de empresários, de um sonho fanático de destruição de tudo o que é vivo. Depois de tudo destruído, haverá então lugar para a construção de um Portugal novo e moderno, em conformidade com o que vai nas pobres cabeças dos governantes.

Não há maior infelicidade para um povo do que ser governado por um grupo de fanáticos que sofre de alucinações. Como retornar aos anos quarenta é uma pura alucinação, o governo está a preparar uma inominável tragédia.