terça-feira, 25 de setembro de 2012

Da velhice como forma artística

Odilon Redon - Viejo alado, con larga barba blanca


Era-lhe agradável sentir a barba sob a mão como se esta alisasse o pêlo azulado de um animal. Começavam já a despontar nela os primeiros fios de prata, mas isso não o incomodava. Também o medo de envelhecer era um preconceito europeu. O prazer da vida aumentava com o correr dos anos, para o que era essencial o papel da experiência - na velhice não se sente apenas, tem-se consciência do prazer. Era como se, no teatro da vida, a mesma pessoa a representar no palco se visse simultaneamente como espectador. Os jovens dissipam e esquentam demais a pólvora e as suas ideias causam mais dores de cabeça do que prazer. (Ernst Jünger, Um Encontro Perigoso, p. 35)

Ernst Jünger publicou o livro de onde foi retirada a citação quando tinha 90 anos. Sabia do que falava. O curioso, porém, é que nós vivemos num mundo em que as pessoas são cada vez mais velhas e, ao mesmo tempo, onde deixaram, por isso, de ter lugar. A sabedoria que o envelhecimento traz parece ser inimiga dos poderes do mundo. Talvez a razão resida no facto destes poderes serem dados à dissipação, movidos por uma estranha sensação de falta de tempo, o que impede essa suprema aprendizagem de se ver a actuar no palco. Os poderes mundanos não suportam a sua própria imagem e, por isso, a velocidade tornou-se um imperativo inamovível.

Não se trata apenas de acrescentar a consciência ao sentimento de prazer. Essa observação pode fornecer um prazer narcísico, mas o mais importante não está aí. O prazer nasce de uma certa perversão da razão, a qual é desviada de si mesma e do seu conteúdo moral para se focalizar no prazer. Não para o julgar, mas para encontrar caminhos de intensificação. Contrariamente ao que um pensamento ingénuo pode supor, a razão e a consciência não são inimigas do prazer e do sentimento deste. Pelo contrário, elas têm o poder - não é a razão um poder? - de iluminar o sentimento, de lhe suspender a imediatez para o tornar mais demorado e requintado. A energia abrupta do sentimento, presente nos verdes anos, suaviza-se, ao mesmo tempo que se torna, pela intromissão da razão, mais incisiva, mais aberta e, apesar do poder do corpo ser menor, mais poderosa, porque abandonou a ilusão do poder.

A experiência, claro, é importante, mas apenas se ela for uma aprendizagem da razão. Não da razão pura, mas da outra, daquela a que Kant chamou heterónoma, a que se submete aos imperativos do prazer e da felicidade. Nesta aplicação, a razão aprende a libertar-se do seu próprio poder. Libertar-se significa dispensá-lo com benevolência, de forma a que sentimento e razão se tornem cada vez mais leves e cada vez mais plásticos e o prazer possa aproximar-se do paroxismo, como se fosse a obra de um exímio artista. Por isso, os poderes do mundo não suportam o envelhecimento. Quem, nestas paragens, se interessa pelo exercício requintado de uma arte?