sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Manifestações


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Vale a pena comparar as manifestações de passado sábado com as que ocorreram no 1.º de Maio de 1974. Em Maio de 1974, as pessoas manifestaram a esperança de que lhes fosse dado um início limpo e puro. Em Setembro de 2012, as pessoas manifestaram o desespero final, a descrença nas elites políticos e um cansaço sem fim. Da ilusão à decepção. Como em Maio de 1974, nas manifestações de sábado estiveram pessoas sem grandes compromissos políticos, pessoas de vários estratos sociais, esteve um povo que, na generalidade, não é militante político ou sindical.

Nos 38 anos que decorrem entre estes dois acontecimentos, os portugueses entregaram o seu destino à classe política, fundamentalmente à troika PP/PSD/PS. Avaliaram esses partidos como politicamente moderados e ansiaram que fossem justos e competentes. Desde muito cedo, porém, que o sentido de justiça se corrompeu e a competência técnica e política foi escasseando. Hoje (e hoje não se refere apenas ao actual governo) somos governados por gente que há décadas atrás nem para motorista do governo serviria. Gente que não estudou, gente que, se estudou, não conhece o país e a realidade nacional, gente irresponsável, habituada apenas aos truques das juventudes partidárias ou aos jogos florentinos das universidades. Foi contra esta gente que centenas de milhares de pessoas se manifestaram.

Como a manifestação do 1.º de Maio de 1974, também estas correm o sério risco de não serem mais do que um happening, que termina no momento em que toda a gente retorna a casa. Se isso for assim, 38 anos de experiência democrática não nos serviram para nada. Hoje em dia, a questão não é já exigir governantes mais justos, competentes e menos corruptos. Trata-se, pura e simplesmente, de limitar o poder dos governantes – nacionais ou locais e sejam de que cor forem – retirar-lhes através da lei o conjunto de discricionariedades que possuem,  restringir-lhes o arbítrio quando governam.

O problema reside no poder excessivo de governantes e autarcas. Esse poder só será circunscrito de forma razoável se os cidadãos perceberem que a sua função não é legitimar, pelo voto, quem governa mas fiscalizar, criticar e exigir que a classe política seja frugal nos seus apetites, transparente nos seus actos e que responda, efectivamente e de forma ampla, perante a lei pela sua acção. Salvar a democracia implica que desconfiemos absolutamente dos partidos e das pessoas em quem votamos. Só assim, as manifestações de sábado passado não terão sido um mero happening e poderão contribuir para salvar a democracia.