quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A irrupção do novo

Salvador Dali - Nacimiento del Nuevo Mundo (1942)

Em tudo o que se está a passar, na enorme confusão que se desenhou na sociedade portuguesa, há uma coisa que escapa tanto a governantes como a governados. Essa coisa poderia ser chamada a irrupção do novo. Há períodos na história em que a substituição de gerações se faz de forma ordeira e pacífica. Essa tonalidade amena leva-nos a ver esse modelo como aquele é que natural e bom. No entanto, há períodos em que a história parece acelerar-se e a irrupção do novo faz-se de uma forma mais dura e violenta. Faz-se pela expulsão do velho, das antigas gerações que ainda não são suficientemente velhas para abandonarem os lugares que ocupam, mas como o espaço escasseia e não há lugar para a substituição benigna, o novo toma a figura da turbulência e da violência. 

A forma como essa expulsão violenta se dá não está definida. Pode ser através de uma revolução política como aconteceu em 1974 ou pode ser através de uma crise económica e financeira como a que está a ocorrer. Aquilo a que estamos a assistir é a turbulência da eclosão do novo. E isso está a acontecer com uma violência inaudita perpetrada sobre o velho. A tendência das pessoas, fundamentalmente das que são afectadas, é não perceberem assim os acontecimentos. Em primeiro lugar, porque são atingidas e vêem o acontecimento pelo lado sombrio da injustiça que sentem na pele. Em segundo lugar, porque há uma tendência para se ver a irrupção do novo como um bem, como o triunfo de um novo mundo, que seria melhor e mais livre do que o anterior. Ora este novo mundo que está a irromper parece ser bem pior do que aquele que tem vigorado. 

Ora nada está escrito na natureza que impeça que a irrupção do novo seja injusta para o velho mundo. Também nada está inscrito na natureza das coisas que imponha que a novidade seja um bem. Essas são as nossas ilusões. Há uma mecânica na história que traz, inevitavelmente, estas convulsões. A exuberância da vida que não tem lugar para dar vazão à energia acumulada e a senectude rígida daquilo que ocupa ainda os espaços sociais existentes são um chamariz para a turbulência que está a suceder. Aquilo que está acontecer não é uma luta de gerações, é qualquer coisa mais profunda do que isso. É algo de não humano que se manifesta, como uma necessidade, na sociedade humana. 

Contrariamente ao que se possa pensar, este carácter de necessidade natural inscrito nesta turbulência não desculpa a governação do país - esta e as anteriores. Poder-se-ia pensar que como a turbulência da irrupção do novo se manifesta como uma força da natureza, o governo não seria responsável pelo mal que vai acontecer a muitos de nós. Puro engano. O dever dos governos - se eles não fossem ocupados por gente intelectual e politicamente desqualificada - seria compreender estes processos naturais, antecipar as situações, e organizar a vida social de forma a evitar as situações violentas da irrupção do novo. Como isso não foi feito e não está a ser feito, só podemos esperar uma tremenda desgraça, a qual espreita já no horizonte. Não vai ser bonito aquilo que vem aí, seja o que for.