segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Cientistas condenados

Carmen Calvo - Ciencia (1999)

Seis cientistas foram condenados a seis anos de prisão por terem subestimado os riscos do terramoto de Áquila, em Itália (2009). Esta é uma notícia preocupante, que representa a revivescência de uma cultura sacrificial muito arcaica. Podemos perceber o desespero que a morte de 309 pessoas pode provocar. Contudo a condenação dos cientistas é completamente absurda. Ninguém, hoje em dia, tem a pretensão de que o conhecimento científico seja infalível. Pelo contrário, o século XX descobriu a natureza conjectural da ciência. Na condenação do tribunal italiano não há apenas o desconhecimento da natureza da actividade científica, há ainda uma crença implícita de que a ciência tem a capacidade mágica de prever o futuro e as linhas em que ele se pode desenvolver. O facto de os cientistas terem subestimado o perigo da actividade sísmica da zona não nos diz nada sobre uma conduta viciosa de natureza criminal. Indica-nos apenas que os modelos utilizados eram epistemologicamente desadequados à realidade. E esta desadequação dos modelos pode não se dever à incúria, mas ao próprio carácter revisível, controverso e conjectural da ciência. Deve-se ao facto de ela ser o produto do homem, um ser falível e imperfeito. Um cientista não é um profeta que vê o futuro. Confundir erro científico com conduta criminal é um terrível e absurdo equívoco. Mas não é o mais grave. O mais grave é a necessidade de encontrar um bode expiatório para sacrificar na ara da justiça e, assim, acalmar as potências infernais que desencadeiam acontecimentos que nos podem matar. Este julgamento, por outro lado, diz-nos muito do que é a vida larvar das comunidades, vida essa que se oculta sob o verniz de um racionalismo mal digerido. Diz-nos muito do carácter mitológico que subjaz nas próprias práticas de justiça.