sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Espectros silenciosos


Esta mulher, que interrompeu o discurso de Cavaco Silva, resumiu o estado a que se chegou: "Ninguém me ouve, ninguém me acode porquê?" Há muito que as pessoas deixaram de ter voz. Com a nossa entrada na União Europeia (CEE, na altura), cada um de nós foi-se tornando um fantasma, um espectro cada vez mais silencioso. Não que a voz nos fosse tirada. Fomos nós que, progressivamente, abdicámos dela. Havia quem falasse por nós, que fizesse do silêncio de cada um a grossura da sua voz. Cavaco foi o primeiro, com a sua vaidade insuportável e uma demagogia sem limites. Foi ele que deu o exemplo.  Os outros apenas seguiram e, por vezes, intensificaram o mestre. Luísa Trindade não se enganou no interlocutor. Foi com ele que o descalabro começou, para não mais parar. 

Mas o grito desta mulher é duplamente terrível. Em primeiro lugar, é o grito de um povo desesperado, sem voz, abandonado à sua sorte. Em segundo lugar, é também uma confissão de impotência, uma terrível impotência: Quem me acode? Quem nos acode? Como é que nove séculos de história produziram um povo que espera ainda por alguém que o salve? Como é que a nossa iniciativa e orgulho foram destruídos até chegarmos a isto? Como é que durante nove séculos nunca aprendemos que só nós nos podemos salvar? Como é que, em cada acto eleitoral, julgámos eleger um salvador? Como é que entregamos sempre ao salvador de momento a missão de remir os nossos males? No grito daquela mulher, está a sua dor, mas também o retrato de um país, o retrato de cada um de nós, mesmo daqueles que se julgam muito modernos e empreendedores. A terrível pergunta "ninguém me acode porquê?" tem a mais terrível das respostas: não há ninguém ou nada para acudir seja a quem for, estamos reduzidos a espectros silenciosos. Os laços foram e estão a ser destruídos. Ninguém nos pode acudir, a não ser nós mesmos.