domingo, 28 de outubro de 2012

Meditações taoistas (1)


Aquele que possui em si a plenitude da virtude
é como uma criança recém-nascida:
os insectos peçonhentos não o picam,
os animais selvagens não o esfacelam,
as aves de rapina não o arrebatam.
Lao Tse, Tao Te King, LV

Ao abandonar a casa paterna, Jeremias vogou pelo mundo, teve ambições e desejos, amou, perdido no restolho das searas desfeitas, mulheres extraviadas, enlouquecidas pelo setentrião. Assim se fez homem. Da casa do pai, sentiu, nos dadivosos dias de inverno, uma lembrança fugaz quando um raio de sol lhe tocou os cabelos. Caminhou como um homem caminha, os pés assentes na terra, os olhos presos a uma ilusão. Noites houve em que parecia sucumbir, mas a alvorada vinha de imediato iluminá-lo com a promessa de novas esperanças e ilusões.

Passaram dias e anos. O medo da dor e da morte cravou-se-lhe como um espinho no coração. Agarrava-se, por essas alturas, à pele frágil que o amor das mulheres lhe enviava, aos lugares do mundo onde o reconheciam. Descobria sempre a solidez do homem maduro que a vida dele fizera. Quando, em chuvosa noite de Outono, a serpente lhe armadilhou o caminho, nada do que tinha aprendido lhe serviu para coisa alguma. A morte visitava-o e, encurralado, entregou-se ao jogo da seu próprio fim. Como uma criança gritou: "uma serpente não pode deixar de ser uma serpente. Cumpre a tua função!" Uma súbita luz tomou conta de Jeremias e ele sentiu os primeiros afagos da sua mãe. Era agora um menino frágil e indefeso, aberto aos perigos que a morte à vida trazia. A serpente, porém, enrolou-se sobre si e um silvo lamentoso ouviu-se por todo o oceano.

Jeremias voltou então ao lugarejo onde nascera. Por vezes, descia à cidade e como uma criança sonâmbula olhava os abutres e as hienas que por lá vogavam. Siderado, sorria e na inocência redescoberta pensava: "a hiena não pode deixar de ser uma hiena e o abutre deve procurar cadáveres. É a sua natureza!" Protegido por essa sabedoria, voltava à casa que o vira nascer.

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Descobri uma série de textos, exactamente seis, escritos no ano de 1999, designados meditações taoístas. Constam de uma epígrafe retirada do Tao Te King, de Lao Tse, e um texto da minha autoria que pretendia ser uma glosa feita a partir do ponto de vista das tradições ocidentais. Há duas coisas que não consigo recordar. Não sei se estes textos foram publicados, na época, no Jornal Torrejano. Também não me recordo por que não passei de seis, pois encontrei o início do sétimo. Verei, no decurso da sua publicação aqui, se continuarei, passados treze anos, a série ou não.