segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O endeusamento da mudança

Manuel Rivera Hernandez - Metamorfosis, mutación (1961)

Por um pequeno truque, José Mário Branco transformou, há muitos anos, o soneto de Camões, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, numa espécie de hino à bondade da mudança. O truque está em colocar entre as estrofes camonianas dois versos que funcionam como refrão: Mas se todo o mundo é composto de mudança / Troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança. O texto de Camões está repleto de dialéctica, mas de uma dialéctica ainda não iluminista. A mudança é apresentada, por norma, como contrária à esperança, como aquilo que converte em choro o doce canto. José Mário Branco vai sublinhar a ideia de que o mundo é uma criança, ainda está na sua aurora e que, sendo assim, é possível dirigir-lhe a mudança. Não se pode dizer que há uma completa perversão do texto de Camões. Os últimos dois versos do soneto (Outra mudança faz de mor espanto / Que não se muda já como soía) mostram que há uma mudança na própria mudança, que ela estava a ter uma transformação qualitativa, o que a abriria, podemos imaginar, para a própria esperança.

Camões está à porta da modernidade, já não pertence a um tempo onde a tradição via no fluxo das mudanças o princípio do mal, mas também não era ainda um iluminista, que via na mudança um progresso em direcção ao bem. José Mário Branco canta ainda embalado pela crença iluminista no poder da vontade humana e no progresso. O que estamos dolorosamente a aprender desde há um século, com especial ênfase nos últimos tempos, é que a mudança pode ser contrária à esperança, e no lugar de um bem trazer o mal sob novas figura. O endeusamento da dialéctica da mudança tornou-se para mim, com o passar do tempo, um enigma. Dir-se-á que os homens clamam mudança porque têm esperança que ela traga o bem e o justo. Mas isso não é verdade. 

A experiência mostra-nos que as mudanças acabam sempre, com o passar do tempo, por se tornar grandes decepções, como se a realidade fosse impotente para satisfazer a esperança. Resta-me uma explicação: os homens endeusam a mudança porque não têm outro remédio. Queiram ou não, as coisas mudam, e mudam sem conotação moral. Contrariamente ao que diz a canção de José Mário Branco, o mundo muda mas poucas são as nossas possibilidades de lhe trocar as voltas, pois ele não é uma criança, mas uma velha rameira. A esperança com que os homens investem a mudança, mesmo se mil vezes decepcionados, é o ópio que usam para tornar a dor da mudança suportável. Só isso.