terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um triste destino

Marc Chagall - The Dance (1950-51)

Este artigo do filósofo Peter Singer toca naquilo que, em última análise, separa o mundo islâmico do mundo ocidental. Por importante que seja a questão israelo-palestiniana ou o sentimento de humilhação histórica perante o desenvolvimento e a dominação ocidental, é a questão da mulher que joga um papel decisivo. A decadência e a degradação moral que muitos muçulmanos descortinam no modo de vida ocidental residem no simples facto de as mulheres ocidentais serem livres e iguais aos homens perante a lei. 

A história, comentada por Singer, da proibição, no Irão, da frequência de certos cursos (onde se inclui o de Literatura Inglesa - terão medo que elas leiam O Amante de Lady Chatterley?) por mulheres é apenas mais um episódio de uma questão central para os homens muçulmanos. Contrariamente ao que muitas pensariam, as revoluções árabes dos últimos tempos têm resultado numa maior opressão da mulher e numa eliminação dos seus direitos. Peter Singer tem toda a razão em lembrar o cerrado boicote à África do Sul racista e sublinhar que, perante a ausência de "amplos boicotes às universidades do Irão, ou a outros produtos iranianos, como havia contra o apartheid na África do Sul", ainda não levamos a discriminação sexual tão a sério quanto a racial. 

Tem toda a razão, mas será praticável um boicote ao Irão? Um boicote ao Irão por motivos de discriminação sexual teria de ser estendido à quase generalidade dos países muçulmanos. Ora nem as necessidades de petróleo do Ocidente nem a presença dos interesses ocidentais nos mercados dos países islâmicos permitem tal coisa. A terrível situação da mulher muçulmana, para além das declarações de princípio circunstanciais e um ou outro protesto por alguma crueldade mais manifesta, não comoverá quem quer que seja com poder no Ocidente. Por causa das mulheres, o mundo muçulmano rejeita a nossa cultura. Por causa dos interesses, o Ocidente abandona as mulheres muçulmanas à sua sorte.