quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Adriano Correia de Oliveira


Andava há muitos anos para comprar a obra completa de Adriano Correia de Oliveira. Por um motivo ou outro, ia adiando o projecto. Comprei-a agora, numa altura que pensava que estava esgotada. Não para a ouvir, pois musicalmente já não me interessa, mas como tributo à minha memória e àquilo que fui. Recordo as horas que passei a jogar xadrez no Cine Clube de Torres Novas, antes do 25 de Abril de 1974, com música de fundo, onde estavam, entre outras, as canções de Adriano Correia de Oliveira. Para dizer a verdade, aquilo que despertava em mim uma certa vibração era a poesia de muitas destas canções. E, sei-o hoje, a minha ligação à poesia deve-se também a essas canções dos cantores comprometidos politicamente.

Por outro lado, há nas canções de Adriano Correia de Oliveira, bem como nos primeiros discos de José Afonso e na música de Carlos Paredes, um certo pathos que acabei por identificar com o símbolo de ser português. Há ali uma nostalgia, uma saudade, um desejo de pureza, uma espécie de promessa arcaica de paraíso tocado pela simplicidade, que associo ao que há de mais fundo nos portugueses. O mais curioso é que não encontro a simbolização dessa portugalidade mítica em mais lado nenhum, nem sequer na grande Amália Rodrigues. Ora esse pathos ainda me comove, embora não me mova, como se eu também transportasse no fundo de mim o desejo mítico de um paraíso arcaico e simples, onde os homens viveriam fraternalmente.

Quando vejo muita gente reclamar contra a injustiça histórica da condenação do fascismo e do nazismo ter sido muito mais violenta do que a do comunismo, ou quando se condena com rancor indisfarçado a complacência de muitos intelectuais perante os crimes estalinistas, vejo que esses juízes não compreendem nada do que move os homens. Ao ouvir Adriano Correia de Oliveira ou José Afonso, por exemplo, esse paraíso mítico quase se torna tocável e as pessoas perdem a aura egoísta que possuem. O comunismo teve um enorme peso não por aquilo que ele prometia (a sociedade sem classes), mas porque teve a capacidade de acordar em muitos homens uma reminiscência de um paraíso perdido. 

É o apelo desse paraíso perdido - um paraíso especificamente português - que ainda oiço na voz de Adriano Correia de Oliveira. O fascismo e o nazismo foram desde muito cedo percebidos como uma emanação do mal. O comunismo, pelo contrário, ecoava a promessa de uma fraternidade, cuja aspiração reside enterrada no fundo do coração humano. Mesmo depois de se saber o quão criminoso foi o regime comunista nos locais onde existiu, muitos têm dificuldade de o condenar. Não porque sejam complacentes com o crime, mas porque essa ânsia paradisíaca, que se manifesta em vozes como a de Adriano Correia de Oliveira, não emigrou do coração dos homens. Pressentem que essa condenação seria a condenação do próprio homem, o fim da esperança na salvação. E talvez o conceito de salvação seja central para perceber a atracção que tudo isso exerceu e exerce sobre muitos seres humanos. De certa forma, também Adriano Correia de Oliveira era um cantor não de intervenção, mas da salvação.