domingo, 18 de novembro de 2012

Meditações taoistas (4)

Produz sem se apropriar,
age sem nada esperar,
acabada a sua obra, a ela se não prende,
e porque a ela se não prende
a sua obra permanecerá.
Lao Tse, Tao Te King, II

Um dia, depois que a morte consumou as suas vidas, Heraclito, o efésio, e Parménides de Eleia sentaram-se a uma mesa circular. Não sorriram, tão pouco trocaram palavras. Apenas um breve olhar de desdém assomou na fronte dos dois contendores. Tinham esperado demasiado por aquele momento para que perdessem tempo com coisas inúteis a que só os vivos dão valor. As obras que escreveram há muito que haviam partido das suas mãos e, como fragmentos de tijolo presos à avidez dos arqueólogos, foram entregues à rapina sôfrega dos que vivem de cadáveres esquartejados. 

Chegara a hora da vingança. Impelidos por idêntico sentimento, cada um lançou sobre o tampo verde da mesa um belo dado de marfim. Vencerá a imobilidade de Parménides ou o perpétuo movimento de Heraclito? Das mãos de Parménides, solta-se o dado e, como que sustido por rede inviolável, imobiliza-se no ar retido pela necessidade de eternamente ser o que é. Quem, porém, viu o lance do efésio pensou descobrir no ondular de seus braços o fluxo eterno da água que passa: o dado caiu sobre a mesa e rola ainda hoje, num caminhar sem fim, sobre o verde tampo que o suporta. Presos nas obras que um dia fizeram, os corações daqueles homens tornaram-se uma paisagem sombria, um lugar de azedume e incerteza. Enquanto assim for, os maléficos sonhos por eles, na aurora do mundo, sonhados não deixarão de aterrorizar as noites e os dias que, na sua sombra, viveremos.