sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O happening frente à Assembleia


Estive a ver com atenção este vídeo sobre os distúrbios de anteontem frente à Assembleia da República. O acontecimento merece alguma atenção por aquilo que ele revela. Há leituras óbvias,  umas de natureza política e outras de inclinação moral. Mas essas leituras impedem a clara compreensão do que se passou ali, impedem inclusive a compreensão do que há de político no acontecimento. Se a moral e a política não são a porta de entrada para entender o fenómeno, qual será então?

O que se passou ali foi um happening. O fenómeno é de natureza estética e envolve dois tipos de artistas que, de uma forma ou outra, se preparam para este tipo de desempenho. Apedrejadores e polícias não são, como uma leitura vulgar pode pensar, inimigos. Pelo contrário, têm em comum o facto de serem artistas que produzem o acontecimento. Cada parte desempenha o papel combinado e representa-o em conformidade com o fluir do happening. Se olharmos com atenção aquela gente que grita e atira pedras, transparece imediatamente que a indignação que ostentam é pura máscara. Não há ali qualquer sentimento político, mas apenas a entrega ritualizada ao exercício que vai permitir que a polícia represente também a sua parte. O que está em jogo é o exercício estético da violência, os rituais de destruição, o culto do fogo, a prática arcaica do apedrejamento, a produção do caos. Tudo isto, porém, apenas serve para que a carga policial, que mais do que suscitada foi implorada na representação, venha repor o cosmos, segundo a figura estética da ordem.

Os apedrejadores exaltados precisam claramente da polícia e exigem-na. Para quê? Não apenas para contracenar, mas para os proteger do seu próprio vazio. Imagine-se apenas que a polícia se retirava, lhes abria o caminho. O que fariam? Tomavam a Assembleia de assalto? Confiscavam o poder ao parlamento? Decretavam um novo estado de coisas? Não, pois não têm qualquer programa político, nem a política, em última análise, os interessa. Para além de vandalizar edifícios e outros bens, sem resistência, ficariam perante o ridículo do seu próprio vazio. Estes encontros entre exaltados apedrejadores e a polícia não diferem dos encontros entre claques rivais de futebol, que se encontram para o mesmo tipo de happening, seja entre si, seja contra a polícia. O vídeo é interessante também porque mostra que a maioria das pessoas estava lá para assistir à encenação. Tinha ido ao espectáculo e não era suposto participar nele.

O fenómeno tem relevo do ponto de vista político porque torna patente o grau de degradação da vida política nas sociedades pós-modernas. A ritualização da política, fenómeno central nas sociedade pré-iluministas, foi substituída por um conjunto de procedimentos de natureza burocrática, de onde a imaginação foi expulsa. A ritualização mágica despedida vinga-se ao emergir através destes fenómenos de carácter estético, os quais encontraram na moderna comunicação social o palco onde podem encenar e teatralizar a necessidade da violência. 

Em resumo, estes fenómenos são muito ambíguos. Em primeiro lugar, não têm conteúdo político tal como o entendemos no confronto de ideias e de interesses, são exercícios estéticos em que o corpo tem um papel central. Em segundo lugar, estes fenómenos simbolizam um estranho sonho de uma ordem mágica e, nesse sentido, manifestam o desejo recalcado de uma ordem pré-burguesa, de carácter tradicional.