quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Um povo em tribulação

Georges Rouault - Los fugitivos o El éxodo (1911)

A infeliz conjugação de sucessivos governos incompetentes, ignorantes, irresponsáveis e cobardes com os desvarios financeiros da nova santíssima trindade que preside aos nossos destinos - conhecida vulgarmente por troika - fizeram, de novo, dos portugueses um povo em tribulação. O êxodo a que assistimos, mais uma vez na nossa história, parece o resultado de uma condenação metafísica, contra a qual somos impotentes. As sucessivas vagas de emigração não foram suficientes para que o problema fosse pensado e radicalmente enfrentado. Mesmo hoje em dia, fundamentalmente por parte dos responsáveis políticos, a emigração de portugueses é um dado da natureza, uma lei social tão necessária quanto a lei física da gravidade. 

Esta naturalização do fenómeno tem a capacidade de esconder duas coisas. Em primeiro lugar, o povo português não é um povo tendencialmente nómada. Pelo contrário, é um povo geograficamente conservador - apesar de tudo o que se possa dizer da aventura dos Descobrimentos e da deslocação do interior para o litoral - que cultiva o lar e a terra natal com um dos bens (talvez porque a vida o torna escasso) mais elevados que existem, como se vê pelo retorno no verão dos emigrantes. Em segundo lugar, esconde a necessidade de discutir a viabilidade do país, a sua organização, a forma como deve ser orientado para que caibam nele todos os que querem ficar. A naturalização do fenómeno da emigração transforma a incompetência das elites no mais frio destino das gentes e faz do povo português um povo em tribulação, como o são, em níveis diferenciados, os judeus, os ciganos, os palestinianos.