sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ad hoc

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Gosto da expressão latina ad hoc. Ela significa literalmente ”para isto”. O uso corrente da expressão refere um determinado tipo de soluções que, não sendo gerais, se aplicam a um certo caso particular. O meu interesse pela expressão deve-se a uma coisa muito simples. Ela caracteriza, infelizmente, demasiado bem a maneira como se governo o país. Desde há muito que as soluções políticas encontradas são ad hoc, respostas particulares sem qualquer pensamento de fundo, sem qualquer visão sobre o futuro do país, aos problemas que vão surgindo. 

Quando a tormenta nos bateu porta, em 2008, na sequência da crise do subprime nos EUA, todas as opções políticas de enfrentamento da crise têm sido soluções ad hoc, respostas particulares, respostas sem qualquer pensamento estratégico que permita desenhar um percurso para a saída da situação. Há falta de dinheiro? Então, faz-se um PEC e corta-se aqui. Continua a haver falta de dinheiro? Faz-se outro PEC e corta-se ali. Acabam-se com os PEC e chama-se a troika, mas continua a faltar dinheiro. Qual a solução? Fazem-se mais uns cortes aqui e ali. Tudo isto parece o exercício de amadores. 

Mesmo os actuais arroubos ideológicos do governo, uma espécie de espasmo masturbatório ultraliberal, não passam de arroubos ad hoc, para aproveitar o momento em que toda a gente anda distraída com a falta de dinheiro e entregar um conjunto de bens públicos à voracidade de interesses privados. O único pensamento que existe, mesmo neste caso, é entregar o máximo que se for capaz enquanto se tiver a mão na rédea do poder. O adhoquismo reinante trouxe o país para a malfadada situação em que se encontra. Mas como nunca aprendemos nada de relevante, continuamos com o mesmo tipo de atitude, tentando apenas sobreviver até ao mês seguinte ou até à próxima avaliação da troika

Há dois momentos que desenham esta infinita tragédia que nos acomete. O primeiro é a adesão à CEE e o segundo, a entrada no Euro. Teriam sido os momentos ideais para não deixar desordenar as finanças públicas e traçar um rumo viável para um país periférico como o nosso. Mas Cavaco nunca passou de um demagogo eleitoralista e Guterres nunca teve rasgo ou coragem para enfrentar a situação. Quando Durão Barroso grita que o país está de tanga, estávamos já atolados no inferno. Daí para cá, o descalabro foi aumentando perante a pusilanimidade, incompetência e desfaçatez de um punhado de agentes políticos impreparados e sem qualquer sentido de Estado. No fundo, estamos a pagar duramente por termos entregado o país a gente ad hoc.