sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Delírios



Escrever sobre as razões que levam alguém a entrar numa escola e matar vinte e seis pessoas inocentes, entre as quais vinte crianças, como aconteceu agora nos Estados Unidos, não passará de uma especulação inútil sobre a perversidade ou a patologia dos seres humanos. Certamente que a repetição deste tipo de acontecimentos na sociedade americana dirá alguma coisa sobre a sua natureza. Mais interessante de que tudo isso é, contudo, escutar o que nos dizem certos sectores radicais republicanos, gente ligada ao Tea Party

Por exemplo, a ex-governadora do Alasca, Sarah Palin, acha que os cidadãos americanos não devem escutar as elites que pretendem controlar o uso de armas. Nos momentos de desespero, resta apenas pôr a fé em Deus. Por seu turno, o ex-candidato a candidato republicano às presidenciais deste ano, Mike Huckabee, estabelece uma relação entre esta violência nas escolas e o facto de Deus ter sido retirado dessas mesmas escolas. Estamos perante visões da realidade absolutamente delirantes. O delírio é tão grande que o próprio presidente Obama em vez de agir pede sugestões para enfrentar o problema, numa clara confissão de medo perante o lóbi dos fabricantes de armas. 

Este delírio com que se enfrenta os massacres de inocentes não é diferente daquele que pretende impedir que qualquer cidadão americano possa aceder a cuidados mínimos de saúde, ou ao delírio com que, nos EUA, se tem vindo a destruir as classes médias para proteger, através de uma legislação conveniente, os mais ricos. 

O grande problema para nós, europeus, reside no facto desse delírio ter sido avidamente importado pelas lideranças europeias. Durante algumas décadas, talvez devido à experiência traumática de duas guerras mundiais e à bolchevização, digamos assim, de parte substancial da Europa, os líderes europeus procuraram afastar visões delirantes do mundo, tentando encontrar soluções razoáveis que permitiram construir uma certa harmonia nas diversas sociedades europeias. 

Com o fim do comunismo e a diluição da memória das Grandes Guerras, as elites políticas europeias americanizaram-se e importaram doses maciças da mais descabelada fantasia americana. Rimo-nos das Sarah Palin, dos Mike Huckabee, dos George W. Bush. Mas na verdade deveríamos chorar lágrimas amargas, pois são os seus émulos europeus que nós temos, nos últimos tempos, escolhido para nos governarem. Falta-nos ainda um passo decisivo na loucura, falta-nos chamar Deus para justificar as atrocidades sofridas ou o longo exercício de injustiça em vigor, mas já estivemos mais longe. O delírio é uma doença viral.