quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Do significado da ironia

Jacinta Gil Roncalés - Ironía (1998)

Loin de s'émerveiller, la pensée objective doit ironiser. Sans cette vigilance malveillant, nous ne prendons jamais une attitude vraiment objective. (Gaston Bachelard, La psychanalyse du feu)

O que nos distingue a nós, homens modernos, dos antigos gregos? Estes ainda pensavam que o acesso à verdade se iniciava com o espanto, com o evento do espantar-se (s'émerveiller), enquanto a nós resta-nos, no mundo desencantado que nos coube, o exercício da ironia. Mas não foi Sócrates o principal ironizador? Não foi ele que transformou a εἰρωνεία de um mero interrogar na suprema arte de converter a alma ao caminho da verdade? Sim, mas Nietzsche ensinou-nos que Sócrates foi o primeiro dos modernos. Ele é o alfa e o ómega da modernidade, alguém que já tinha perdido o ethos do encantamento. Ora o que Bachelard nos ensina inadvertidamente, pois quer ainda salvar o pensamento objectivo, é que a ironia é uma forma de vigilância malévola. Toda a nossa filosofia e todas as nossas ciências se inscrevem, dessa forma, numa atitude, a vigilância malévola, que se funda na suspeita, a qual usa a ironia como processo crítico. Ironia, vigilância malévola, suspeição, toda uma fenomenologia da degradação do carácter, todo o percurso que transforma um espírito nobre numa alma burguesa.