domingo, 23 de dezembro de 2012

Meditações taoistas (8)

Mistério que se renova no mistério
porta de todo o deslumbramento…

Lao Tse, Tao Te King, I


Um súbito rumor, a sombra que desliza, a tarde silenciosa debruçada para o mar. Caminho sobre a areia molhada e fria, caminho na solidão ferida pelas algas marítimas, caminho preso ao abismo. Sento-me sobre uma rocha e olho o mar, o vaivém das águas, o destino das gaivotas sobre o oceano. Contemplo a reverberação da luz solar, os infinitos raios que se desprendem da agitação marítima, formam figuras leves e aladas, que a atmosfera traga com um lampejo de cinza, deixando no ar uma promessa de saudade, o vazio daquilo que não mais voltará.

Levanto-me e os teus olhos esperam-me silenciosos, olhos que nunca vi e que abrem um sulco na minha alma, rasgam-me a carne até sentir o ventre pulsar e uma agonia obscura a dançar no centro do coração. Olho esses olhos e tudo se dissolve, a areia molhada, o vento marítimo, as ondas que desenham mapas no areal, o oceano desmemoriado e cruel como a vida. Cada instante, um prenúncio de eternidade, o desenho de um mistério que se esconde no mistério de um olhar, a vertigem que faz desabar o mundo para o reconstruir na palidez de uma face, na trama urdida de uma alma.

Sou agora uma estátua, carne petrificada e suspensa do lago infinito onde os meus olhos se perdem, mármore branco de onde toda a cor foi sugada para se perder no fundo que se oculta no fundo de ti. Perdi a memória e a noite escura que, mal os olhos se tocaram, caiu sobre mim é uma girândola de fogo, um vulcão em erupção, a luz de mil sóis que se abrem como uma porta para iluminar o mistério da noite. Trazes em ti a água de todos os oceanos, o perigo de cada ondulação, a dor de todos os naufrágios. Cego, deixo que a negra luz dos teus olhos ondule no sangue e desenhe um uivo selvagem no silêncio da voz. Deslumbrado, entro no mistério desse olhar e já não há noite nem dia, não há luz ou trevas, apenas o mistério de um rio que, silente e invisível, corre da tua para a minha solidão.