domingo, 30 de dezembro de 2012

Meditações taoistas (9)

Por isso o homem santo
Conhece-se a si mesmo sem se exibir
Ama-se a si mesmo sem se dignificar…
Lao Tse, Tao Te King, LXXII

Abandonara o deserto havia três meses e caminhara por vias secundárias, parando apenas quando a noite se anunciava no horizonte, evitando outro transporte que não os próprios pés. Por vezes, se a natureza não lhe fornecia alimento, entrava numa aldeia ou numa vilória e comprava fruta e pão. Olhavam-no surpreendidos, mas ninguém lhe perguntava quem era, de onde vinha, para que sítio se dirigia. Era parco em palavras, mas olhava com bonomia as pessoas com que se cruzava e recebia em troca um sorriso e, surpreendentemente, olhares de aprovação.

Quando chegou à cidade, estremeceu. Desabituara-se daquele mundo e sentiu, nas primeiras horas, dificuldade em ajustar-se ao burburinho. O silêncio tinha sido a sua vida durante anos. Depressa, contudo, se habituou, como se o silêncio que aprendera tivesse tomado conta de si, se tornasse parte dele, uma sombra que o acompanhava para onde fosse. Conversou com homens e mulheres e logo percebeu que, passados alguns momentos, se abriam com ele, oferecendo-lhe o segredo das suas vidas, a dor que os aprisionava, a sombria tristeza em que definhavam, alguma breve alegria que a vida lhes dera. A eloquência que admiravam nele vinha do olhar e nunca as suas palavras eram excessivas. Uma metáfora, uma breve alegoria, nunca uma ironia, abriam nos outros uma alma agradecida.

Durante anos meditara olhando as areias do deserto. Abandonara a cidade cansado de si, exaurido por uma vida que crescia em insignificância, deixando tudo e todos para se entregar ao vazio que a monotonia do deserto lhe dava. Nos primeiros anos, um mundo de interrogações e incertezas assaltavam-no e cobriam de dúvidas o espírito ainda inquieto. Um dia, ao olhar um grão de areia, viu-se a si mesmo e descobriu a verdade que o habitava. Ele era aquele grão ínfimo de areia, que o sol iluminava e o vento arrastava a seu belo prazer. Pela primeira vez amou em si este ser marcado pela irrelevância e destituído de qualquer poder. Era um grão de areia perdido no universo e isso bastava-lhe. Ao chegar à cidade, foi esse grão de areia que ofereceu aos outros e a quem estes, sem saber a razão, ofereciam, reconciliados, o doloroso segredo das suas vidas.