sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O Banco Alimentar


Decorreu uma nova recolha de alimentos organizada pelo Banco Alimentar. Apesar da crise que atinge as famílias, a operação foi um sucesso, tanto pela quantidade de comida recolhida como pela organização de uma vasta e eficiente rede de solidariedade. O Banco Alimentar, bem como outras instituições do género, é, no entanto, um símbolo da sociedade portuguesa, daquilo que tem de melhor e do que tem de pior.

O que a sociedade portuguesa tem de melhor é este espírito de dádiva e de solidariedade concreta, de entrega aos outros, de resposta efectiva a necessidades de alguém quando já nada nem ninguém responde. Dar e trabalhar para os outros, dizer presente quando tudo e todos se ausentam da vida das pessoas, são actos de alto valor moral. Alguns dirão que não passa de caridade. Sim, é verdade, tudo isto representa um género de caridade. Mas a caridade não é um defeito. É uma virtude nobre, é uma resposta ao apelo daquele que nos é próximo e nos solicita. Pelo acto caritativo, alguém rompe, nem que seja por instantes, a esfera do seu egoísmo e abre-se para a dor do outro. Nestas acções caritativas fundem-se a generosidade natural do ser humano e o amor ao próximo cristão.

Por outro lado, o peso crescente do Banco Alimentar sinaliza o que há de pior na sociedade portuguesa. Sinaliza uma sociedade em desagregação, uma sociedade que não encontrou um caminho de integração económica de todos os seus membros. Sinaliza, fundamentalmente, e terrível falência das elites políticas e económicas, a sua incapacidade de pensar em soluções para o país e para a economia, a sua incapacidade para mobilizar os cidadãos. Muitos – talvez a maioria – daqueles que hoje recorrem ao auxílio do Banco Alimentar são vítimas da incompetência dessas elites, do seu oportunismo, da avidez com que colonizam a sociedade. O peso do Banco Alimentar é o sinal da degradação política que nos atingiu.

Criticam-se, por vezes, as instituições como o Banco Alimentar por suprirem necessidades  que deveriam ser asseguradas pelo Estado. Não confundamos os planos. Estas instituições movem-se na dimensão moral e não na dimensão política. São moralmente virtuosas. Merecem todo o nosso apoio. Isso não significa, contudo, que não se critique drasticamente a sociedade que gera tamanhas desigualdades e injustiças. É verdade que os portugueses se devem orgulhar do seu contributo para o Banco Alimentar, mas as nossas elites deveriam ter vergonha na cara cada vez que uma operação do Banco Alimentar é posta em acção.