quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O peso da irrelevância

Philip West - Todo el peso del mundo (1992)

Nunca me deixa de espantar a dissonância cognitiva em que nós, seres humanos, vivemos. Foi anunciada a demissão da administração da Casa da Música, no Porto. Como se pode ver no Público, as reacções são veementes e a indignação grassa nos meios ligados à música. Usam-se expressões como "enorme perigo", "extrema gravidade". De facto, é lamentável a demissão de uma administração que tinha cuidado bem da instituição que dirigia. Mas o caso é absolutamente irrelevante no panorama em que vivemos. Não me estou a referir à crise financeira e à pobreza que cresce país fora. Refiro-me à mais completa ausência de padrões que permitam dar importância a um acontecimento, qualquer que ele seja. 

Ver neste caso um perigo ou algo de grave é viver num mundo que não existe, num mundo onde existem padrões absolutos e uma hierarquia de valores. Nada disso existe. Tudo foi relativizado e os valores que existem assemelham-se todos uns aos outros. Esta demissão é absolutamente irrelevante, por muito que isso custe aos amantes dessa arte suprema que é a música. A utilização da expressão "arte suprema" não passa de uma ironia, pois o que torna irrelevante a demissão da administração da Casa da Música é a irrelevância, no contexto dos valores que orientam o nosso actual modo de vida, da própria música ou de qualquer outra forma artística ou cultural. 

Ver neste acontecimento algo de relevante é que se torna mesmo perturbador, pois mostra que à irrelevância geral dos valores se junta a dissonância cognitiva dos agentes, a profunda desadequação entre as descrições e avaliações da realidade e esta mesma realidade. Numa sociedade onde existisse uma hierarquia de valores, onde os valores da arte e da cultura estivessem no cume da pirâmide valorativa, não teríamos primeiros-ministros como José Sócrates ou Passos Coelhos, não seríamos governados por gente como Miguel Relvas.