segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O velho horizonte

Yves Tanguy - Viejo horizonte

Está a acabar 2012. Este é um ano marcante, pois é aquele em que os portugueses fizeram uma experiência fundamental. Durante muito tempo, os portugueses, como outros europeus, pensaram que a vida material, com o passar do tempo, só poderia melhorar. Sim, haveria crises, mas estas seriam apenas momentâneas, uma espécie de recuo para ganhar balanço e projectar o progresso para mais longe e com mais força. O ano 2012 ensinou que isso foi um pouco piedoso embuste, o qual foi alimentado durante décadas por necessidades estratégicas de combate ao comunismo. Mas o ano de 2012 é marcado ainda por uma outra coisa. A alteração do horizonte. Durante muito tempo - para os portugueses a partir de 1974 ou mesmo do marcelismo - o futuro era um horizonte desejado, pois ele encerrava em si a promessa e a esperança de melhores dias. O futuro tornou-se, a partir da experiência de 2012, aquilo que todos temem, pois nada tem para prometer, mesmo se um primeiro ministro impensável - eleito pela preguiça e demissão de um povo - ainda tenha a desfaçatez, apesar de ser o agente da destruição, de vir entoar loas aos amanhãs que cantam. Resta-nos o velho horizonte. Não nos confundamos, porém. Há um velho horizonte que é ainda a vida que vivemos, aquilo que julgávamos ser uma existência equilibrada e uma vida decente. Apesar de ser passado, esse horizonte está, a partir de 2012, completamente vedado. Resta-nos o outro velho horizonte, o da pobreza endémica, o da injustiça como norma da vida social, o do restabelecimento das insuportáveis diferenças entre os homens. Este velho horizonte é aquilo que nos espera já amanhã. O ano de 2012 foi um ano suave e próspero em comparação com aquilo que nos espera dentro de algumas horas. Olhar para o futuro não é mais do que contemplar um velhíssimo e execrável horizonte.