sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Uma história mal contada

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Há qualquer coisa de misterioso sobre a forma como um suposto coordenador da ONU – segundo parece, alguém que saiu há pouco da cadeia – é entrevistado por um conjunto diferenciado de importantes órgãos de comunicação social. A questão parece corriqueira. O número de órgãos de comunicação social, incluindo os mais importantes do mundo, que têm sido vítimas de embustes é grande, e um dia chegaria a vez de Portugal. O que torna a questão estranha, contudo, é o conteúdo da mensagem do presuntivo coordenador da ONU. Ela é bastante razoável e vai ao encontro daquilo que, na oposição ao governo, muita gente defende. No cerne está a renegociação da dívida soberana.

Não é que os órgãos de comunicação social omitam a existência de pessoas que defendem uma política alternativa à actual, nomeadamente a renegociação da dívida. O que se passa é que para o auditório essas mensagens resultam sempre como pouco congruentes. Há um clima ideológico na comunicação social que tende a criar uma atmosfera que deslegitima todas as alternativas a actual política e, apesar dos resultados absolutamente desastrosos desta, legitima o actual processo de destruição dos direitos sociais em Portugal.

Inopinadamente, o discurso contrário ao do governo surge, perante os olhos e os ouvidos da opinião pública, como tendo sentido e sendo absolutamente legítimo. A comunicação social ecoa opiniões pretensamente autorizadas e independentes que põem em causa o cego trajecto que se tem seguido até aqui. Os corações oposicionistas fervilham de esperança e aqueles que estão a pagar (nós) os desmandos do BPN, da Madeira, das Parcerias Público-Privadas, etc., quase respiram de alívio. Pura ilusão. Não há coordenador nenhum, nem a ONU tem qualquer interesse específico no que se passa na Europa do Sul.

Eu não acredito em bruxas e muito menos em teorias da conspiração. Mas a minha razão diz-me uma coisa muito simples. Não é o pretenso coordenador da ONU que sai mal da história. Quem sai muito mal tratado da história é o argumento que ele foi defender. O que se assistiu foi ao linchamento público daqueles que argumentam contra o governo, ao envolver a sua argumentação numa suposta história de embustes e de imposturas. Cada vez que se argumentar a favor de uma maior racionalidade da governação e da necessidade de renegociar a dívida para aliviar os portugueses, o governo só tem que lembrar este oportuno episódio. Pode ter sido uma brincadeira de mau gosto, mas os seus efeitos são, politicamente, demasiados interessantes. Repito, no creo en brujas, pero que las hay, las hay.