sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Construir pontes

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Portugal vive uma crise que ultrapassa em muito o problema das contas públicas. Se a crise não afecta a nossa identidade, põe em causa a nossa viabilidade enquanto nação autónoma. Reduzir todos os nossos problemas à questão económica é não perceber o essencial. Aquilo que nos está a suceder é o resultado de uma atitude complacente para com a realidade, de uma falta de exigência para com as elites políticas e para connosco, de uma ausência de rigor com que fazemos as coisas e encaramos as situações. É este modo de agir, transversal a toda a sociedade, que nos conduziu ao sítio onde estamos. 

Somos um pequeno povo com uma longa história, uma história que tem muito para nos orgulhar. Mas também somos um povo com poucos recursos, tanto financeiros como de matérias-primas. Estes factores deveriam ser motivo de profunda coesão social. A história dá-nos um suplemento de orgulho para afirmarmos um patriotismo constitucional e não xenófobo, o sermos poucos e pobres apresenta-nos o desafio que nos deveria unir para assegurar o futuro da comunidade.

Vivemos, na prática, uma situação de economia de guerra, tal a devastação que o problema da dívida soberana está a causar no tecido social. Ora é nestas ocasiões que uma comunidade precisa de dirigentes à altura que a consigam unir e mobilizar para a tarefa de superação dos problemas que enfrenta. Unir a comunidade não é fazer uma união nacional ou um bloco central. Unir a comunidade significa, em primeiro lugar, esclarecer com verdade e claramente a situação, aquilo que levou a ela, responsabilizar quem a provocou e explicar um caminho de saída. Em segundo lugar, unir a comunidade significa adoptar políticas em que se perceba que os sacrifícios são partilhados por todos e que os benefícios futuros também o serão. 

Ora em vez de se adoptar um caminho de partilha das dificuldades e de solidariedade, o que se descobre, a cada momento, são truques e golpes para maximizar os lucros de uma pequena parte, para impor um programa ideológico extremista, para desapossar a generalidade da população dos seus direitos. Em vez de unirem os portugueses, as elites governativas têm utilizado a situação para destruírem as classes médias e tornarem as classes populares ainda mais pobres. Portugal c}orre o risco de se desagregar e desaparecer. Precisamos de alguém que construa pontes entre os portugueses e que saiba indicar um caminho que todos nós possamos aceitar e empenharmo-nos nele. O amadorismo e fanatismo político que nos governam, incapazes de construir essas pontes, são o prenúncio de uma grande desgraça.