segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Do retorno aos clássicos

Lawrence Alma-Tadema - A Reading From Homer (1885)

Nos séculos XVIII e XIX, como reacção ao Barroco e Rococó, já em fase de desagregação, surgiu, ao nível estético, o neoclassicismo, um retorno a uma arte de inspiração clássica grego-latina. Este retorno aos clássicos - nomeadamente, aos gregos - é recorrente na cultura ocidental. O primeiro momento de retorno aos gregos é, na verdade, uma apropriação e dá-se com os romanos. A cultura romana absorve e adequa à índole latina os autores gregos. As grandes crises da vida ocidental geram, normalmente, um retorno à pátria originária da nossa cultura. Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) que vive já no período de desagregação do Império Romano é um neoplatónico. Na parte final da Idade Média, o período que vai do seu apogeu à sua crise no século XV, a filosofia e a teologia medievais centram-se no pensamento de Aristóteles. Com o Renascimento, é ainda um retorno aos gregos que se assiste, agora um retorno mais generalizado, que ultrapassa largamente o campo da filosofia. A Querela dos Antigos e dos Modernos, iniciada nos finais do século XVII, sublinha um movimento contrário, com a valorização das obras dos modernos relativamente aos antigos. O neoclassicismo é uma resposta a esta opção e, mais uma vez, um retorno aos clássicos. Este voltar aos gregos centra-se, na maioria dos casos, nos aspectos filosóficos e artísticos, embora a cidade-estado grega nunca deixasse de fascinar o mundo ocidental. 

Na profunda crise que atravessamos, será que ainda há lugar para retornar aos gregos?  E se sim, em que áreas? Uma crise representa sempre um questionamento da identidade. O questionar de uma identidade implica a busca de uma identificação e a necessidade de uma certidão de nascimento. Os clássicos gregos fazem parte dessa certidão de nascimento (juntamente com o cristianismo), atestam a nossa origem, são pais fundadores. Como tal, justifica-se, nesta hora conturbada, o retorno à Grécia e, de certa maneira, a Roma. Em que área? Duas áreas merecem a revisitação. A ética e a política. O que está em jogo na crise económica actual não é a economia, mas uma profunda crise política e uma crise ética. É aqui que faz todo o sentido reinterpretar e reler, à luz dos nossos dias, aquilo que os gregos pensaram sobre a justa medida, o equilíbrio, os ideias de vida e os regimes políticos. Não se trata como em outros épocas de tentar fazer renascer a cultura política e moral clássicas, mas de repensar conjuntamente os nossos problemas e os conceitos que fundamentam a nossa cultura política e as nossas práticas morais. Este retorno aos gregos e aos clássicos não se inscreve numa doutrina da salvação, num exercício soteriológico, mas de um reavivar das práticas do pensamento crítico, de análise dos ideias de vida e da forma como a política e a economia devem ser pensadas e estruturadas segundo os desígnios de uma vida boa. Por muito interessantes que sejam Adam Smith, Karl Marx, John M. Keynes, Ludwig von Mises ou Friedrich Hayek, é mais importante para compreender o que se está a passar e encontrar soluções ler Platão e Aristóteles.