quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

No melhor dos mundos

Andrés Nagel - ¡Oooh, Dios mío! (1990)

Talvez me falte talento para analista político e não tenha nascido com o dom da profecia. Isso explicará a estranha sensação que me acomete de que o governo, apesar de ser constituído por quem é, está a ganhar a guerra que, a coberto do memorando, está a travar contra o denominado Estado social. A sociedade portuguesa está a interiorizar algumas das declarações governamentais e haverá muita gente que, mesmo contrariada, acabará por concordar com os cortes que o documento encomendado pelo governo ao FMI propõe. Estes cortes prometem - não sei se cumprirão - um alívio da carga fiscal, e parte substancial da sociedade portuguesa está sufocada pelos impostos. Os cortes na função pública e nas despesas sociais - educação e saúde - terão como alibi o alívio da tributação. Aliás, uma das razões porque o governo aumentou os impostos foi essa mesmo, criar condições para destruir os mecanismo sociais dependentes do Estado. O princípio utilatista da felicidade do maior número será invocado para justificar o que se prepara.

Uma das razões para esta percepção da vitória do governo reside na ausência de alternativas credíveis junto da opinião pública. De facto, a esquerda, perante a hecatombe que se aproxima, continua os seus jogos florais. O PS, agora com ar assacristoado, diz coisas balofas como é preciso haver crescimento (todas a gente sabe disso), mas não diz como. Por outro lado, o PCP e o BE estão na sua habitual zona de conforto, isto é, fora do sistema. Podem assim dizer o pior possível sem nunca sujar as mãos naquilo que é possível ou não realizar. Esperam apenas que nas próximas eleições umas dezenas de milhares de votos de descontentes lhes aumente a representação. Enquanto as instituições são demolidas, enquanto os bens sociais são dilapidados, enquanto as pessoas sentem o mundo a desabar, as esquerdas não acham que têm de fazer, umas às outras, cedências, grandes cedências, e construir um programa comum credível, não utópico, que consiga a quadratura do círculo: defender as pessoas e as instituições e manter Portugal no sistema internacional em que vivemos, isto é, pagar aquilo que deve. Mas talvez seja eu que não tenha talento para a análise política e tudo esteja no melhor dos mundos.