sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O ciclista e o ministro

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Que elo ligará o decaído Lance Armstrong a Taro Aso, ministro japonês das Finanças? Aparentemente, nenhum. Com alguma atenção, porém, descobriremos que, apesar da diferença étnica, da distinção de funções e da diversidade de destinos, há um pano de fundo que os une e os mostra como pertencentes à mesma cultura, partilhando o mesmo enquadramento ideológico.

O que marca o ciclista americano não é ter sido idolatrado pelos feitos realizados na Volta à França, nem ter revelado agora a sua faceta de vilão. O essencial é o carácter altamente competitivo da personagem. Armstrong é um espelho fiel das nossas sociedades, da ideologia que as impregna, dos fins últimos que propõem à vida dos homens. A ideia central é vencer a todo o custo. O desporto de alta competição é um dos principais veículos dessa ideologia. Nele não há história nem destino para os derrotados e isso é a imagem da sociedade de mercado. E, por estranho que pareça, é o facto de ter sido descoberta a batota que torna Armstrong mais verdadeiramente símbolo da sociedade, pois revela aquilo que ela pratica, mas esconde. Armstrong, ao confessar a sua desonestidade desportiva, revelou a natureza da sociedade que o produziu. A exigência de uma competitividade para além daquilo que é humanamente suportável, uma competitividade que conduz os mais competitivos a abdicar da sua dignidade para vencer custe o que custar.

É essa mesma ideologia que leva o ministro Japonês das Finanças a dizer que os idosos doentes, sem esperança de recuperação, devem morrer rapidamente para o bem da economia. A questão da manutenção artificial da vida, quando a expectativa de recuperação é nula, é um problema complexo e que merece meditação cuidada. O que é chocante, para uma consciência moral bem formada, é a justificação económica, dada por Taro Aso, para essa morte rápida. Ela significa que a vida humana se tornou uma mercadoria e que tem um preço. Quando o filósofo alemão, Immanuel Kant, distinguiu as pessoas das coisas, referiu que as pessoas, ao contrário das coisas, não têm um preço, mas possuem dignidade, pois são um fim em si mesmas. Quando a rapidez da morte humana é avaliada em termos económicos, a dignidade da pessoa foi destruída e substituída por um preço.

É o mesmo tipo de sociedade que leva alguém a fazer batota para vencer ou que põe na boca de um alto responsável político a negação da dignidade da pessoa humana e a sua transformação em mera coisa. A sociedade em que vivemos deixou de ser uma sociedade humana e tornou-se um aglomerado de coisas.