terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Do mérito à Fortuna

William Blake - A deusa Fortuna

Um dos sintomas de que as nossas sociedades estão descristianizadas reside no peso crescente que a sorte, boa ou má, tem no imaginário das pessoas. Em contradição com o paganismo greco-latino, o cristianismo veio realçar o mérito das pessoas no seu destino. Claro que o destino a que o cristianismo se refere é no pós-vida e não depende apenas do livre-arbítrio da pessoa, pois a graça desempenha um papel importante. Mas a ideia de livre-arbítrio - a crença de que posso escolher, sem estar previamente determinado, um certo caminho para  a minha vida e não outro - ao secularizar-se veio permitir pensar a vida dos homens segundo a ideia de mérito, o mérito de fazer escolhas sensatas. As sociedades modernas capitalistas fundaram-se todas elas nesta ideia. O esforço e o talento, e não a circustância arbitrária do nascimento numa casta ou noutra, teriam como recompensa o êxito na vida social ou, em caso da sua ausência, o castigo. Repare-se que é este ainda o discurso do actual governo e do primeiro-ministro. Mas isto é apenas o sintoma do nosso atraso e do anacronismo da informação que é posta à disposição de Passos Coelho.

O que nós estamos a assistir é ao fim da ideia de mérito e à crença no livre-arbítrio. O paganismo que se introduziu nas sociedades cristãs a partir do Renascimento levou, num primeiro momento e com o protestantismo, à secularização, ainda travestida de tons cristãos, do livre-arbítrio na ideia de mérito, como se referiu em cima. Na fase actual, porém, a questão está ultrapassada e a ambiência que se vive, apesar da retórica de alguns governantes ignorantes ou sem vergonha, é que a vida de cada um não depende do mérito, não depende das boas ou más decisões que toma, mas da sorte. Digamos que o livre-arbítrio das pessoas e a graça divina foram substituídas pela Fortuna (Tiquê, para os gregos), a velha deusa romana. Como se sabe, esta era cega ou apresentava-se com a vista tapada, simbolizando a distribuição aleatória dos bens que distribui pelos mortais. Por muito que um Passos Coelho ou um Relvas gritem que somos responsáveis pela actual situação por, putativamente, termos vivido acima das nossas possibilidades, a verdade é que a generalidade das pessoas sente que o seu destino nada depende do seu mérito ou demérito mas da sorte. Isto é mais grave para o cristianismo do que a diminuição de pessoas que vão à missa ou do número de vocações pastorais. É a consumação de uma cosmovisão pagã de onde a liberdade da pessoa foi erradicada, apesar de se viver em sociedades aparentemente liberais.