quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A potência do símbolo

Maurice Denis - The Road To Calvary (1889)

Uma dos grandes poderes das religiões reside na sua carga simbólica. Os símbolos, ao substraírem-se sempre às meras interpretações lexicais e discursivas, propiciam imagens, metáforas e alegorias que permitem interpretar e dar sentido ao que os homens vão vivendo. Mesmo numa cultura secularizada como a nossa, os velhos símbolos do cristianismo mantém uma força e um potencial semânticos que não é de descurar. Por exemplo, o caminho do calvário nunca deixa de ser apropriado ao sofrimento dos indivíduos. O mesmo se pode considerar relativamente aos povos. As actuais políticas de austeridade, impostas por potências externas aos países em dificuldade, são autênticos caminhos do calvário para esses povos. Devemos, contudo, seguir o símbolo do calvário até ao fim. Apesar de não ser isso o que pretendiam aqueles que impuseram a cruz e o calvário, este tornou-se um momento de redenção e de libertação do jugo opressor (e não há jugo mais opressor que o da morte). O calvário que está a ser imposto às pessoas pode ter um efeito surpreendente e inesperado para quem o impõem. Pode ser que conduza à redenção e à libertação daqueles que agora são oprimidos. Talvez o calvário ajude as pessoas a libertarem-se de gente como Passos Coelho ou do inefável ministro Relvas.