domingo, 10 de fevereiro de 2013

A ruína. Conto de edificação e moralidade

Lluis Rigalt - Ruínas (1865)

Primeiro, foram apenas uns grãos de areia que se soltaram aqui e ali. Quase sem se dar por isso, a caliça começou a cair das paredes. Houve quem desconfiasse, mas o mestre-de-obras da altura, sorriu e disse, tranquilizador, que não havia problema. Era mesmo assim. Era preciso que a caliça fosse caindo. Uma espécie de prevenção, acrescentou. Bastava retocar e repintar, a solidez do edifício era inquestionável. Quando as paredes abriram as primeiras frestas, houve discordância de vozes. Os que não gostavam do edifício, sem coragem até ao momento, sentiram que começara a chegar a sua hora. Chamaram arquitectos amigos e sugeriram a necessidade de o derrubar. Aquele espaço seria ocupado de forma mais competitiva por outra coisa e outras gentes. Sem que se tornasse visível, estas vozes, por um estranho malabarismo desconhecido da física, emitiam ondas sonoras em certos comprimentos que afectavam os alicerces do edifício. Pensaram que seria difícil derrubar a casa se ela se mantivesse com uma aparência sólida. Muita gente se abrigava nela. O vozear, sempre naquele estranho comprimento de onda, não mais parou. Quando as primeiras telhas caíram, os que não gostavam do edifício sorriram, enquanto alguns moradores, poucos entre os muitos que havia, tiveram o primeiro vislumbre do destino. Falaram alto, mas riram-se deles. No dia que caíram duas varandas, os moradores entraram em pânico. A intervenção dos bombeiros não foi, longe disso, apaziguadora. A medo, disseram que talvez fosse altura de evacuar o edifício. Para onde vamos, onde poderemos ter um abrigo? Foi a interrogação dos moradores. Os que não gostavam do edifício, sorriram. O novo tempo tinha chegado.