terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Nostalgia

Camille Pissarro - Huerta y Arboles en Flor, Primavera, Pontoise (1877)

Tinha seleccionado este quadro do impressionista Camille Pissarro com uma outra intenção. Ao demorar, porém, o olhar sobre ele, uma estranha e inquietante sensação foi tomando conta de mim. Uma sensação compósita. Um sentimento de familiariedade com a paisagem primaveril combina-se com uma certeza, marcada pela evidência, de que o mundo não tornará a ser assim. Nunca estive em Pontoise e o quadro foi pintado quase 80 anos antes de eu nascer. Contudo, há nele a reverberação de um mundo que eu, há muito, cheguei a conhecer e que, descubro-o agora, amei. Hortas e árvores em flor continuam a existir, bem como a Primavera, mas o quadro de Pissarro ainda retrata um mundo não contaminado, pelo menos na aparência, pela indústria, um mundo que tinha a capacidade de se renovar em cada Primavera e, dessa maneira, tornar-se novo e ingénuo, pronto para todos os recomeços. A nostalgia nasce desse tempo em que tudo podia recomeçar, em que nunca era tarde. A Primavera virá, mas a linha do tempo deixou de ser circular, tornou-se uma recta que, tirânica, nunca permite o retorno. Em 1882, cinco anos depois, Nietzsche, em A Gaia Ciência, ainda pôde enunciar a sua tese do eterno retorno do mesmo - essa assombração para o homem desvitalizado -, pois o retorno ainda era perceptível no movimento da natureza. Mas quem, nos dias de hoje, poderia entregar-se ao supremo exercício de nostalgia e julgar a vida através da alegoria de um eterno retorno do mesmo?