domingo, 17 de fevereiro de 2013

Poema 51: As Quatro estações - Verão

Edvard Munch - Dia de verão (1904-1908)

51. As Quatro estações - Verão

As inúmeras páginas onde o Verão se escreve
abrem-se para a janela do esquecimento.
Incêndios na poeira das horas,
um rasto de destruição sobre as areias,
o naufrágio do coração ao meio-dia.

Cega-me tanta luz, cansa-me o Meridião,
a vitória faustosa, o fulgir do sol sobre as águas.
Aguardo a noite para abrir as janelas
e adormeço humilhado pelo calor,
a esperança da nuvem que não chega.

Não fora a vida precária,
não fora a promessa do Outono,
as horas seriam uma campânula de cinza,
a punição cruel de ver a luz,
um cansaço perdido em cada pétala.

Não sei a cor dos frutos estivais,
não sei em que leitos me deitei em cada Verão.
Oiço sussurrar as ondas pela praia,
sento-me à espera que os barcos cheguem
e no cais o silêncio anuncie as primeiras chuvas.