domingo, 24 de março de 2013

Brincar às destruições criativas

Henri Regnault - Execution Without Trial (1870)

O chefe de missão do FMI para Portugal é, como a generalidade dos técnicos da troika, um patusco. Ignorante da história do país, desconhecedor completo da realidade que vinha, sem processo de julgamento, sentenciar, acolitado por um governo nacional tão ignorante como ele, este senhor, depois de ter ajudado a dizimar centenas de milhares de empregos e de ter destruído milhares de empresas, vem dizer que a evolução do desemprego em Portugal é infeliz, que é mesmo muito pior que o esperado. Esqueceu-se de dizer que houve muita gente que avisou que as medidas adoptadas só poderiam levar onde têm levado.

O mais interessante, porém, é as suas lamentações perante o facto das telecomunicações e a energia não terem descido de preço. Vale a pena reproduzir as palavras do senhor Abebe Selassie: "Penso que o principal objectivo para os preços da electricidade, das telecomunicações e de outros sectores não transaccionáveis é se estão em linha ou começam a cair à medida que a concorrência aumenta ou a procura diminui. Até agora não o estamos a ver e isso é muito decepcionante. Se não responderem às condições económicas penso que definitivamente teremos de olhar para o que o se passa e revisitar as reformas".

Como é possível dizer coisas destas? Quem conhece minimamente a história de Portugal sabe perfeitamente que isto era o mais previsível. Sempre que se liberaliza qualquer coisa, sempre que o Estado deixa de intervir, os serviços pioram e os preços aumentam. Tanto na cabeça do governo português como na destes senhores a realidade - histórica e geográfica - não conta para nada. Pensam que o capitalismo se desenvolve em todos os lados da mesma maneira (deveriam ler o John Gray). Pensam que a história não interessa nada para compreender a economia, coisa que um conjunto de idiotas com lugar cativo na opinião não se cansa de proclamar. Depois têm surpresas.

Portugal está entregue a uma turba de técnicos ignorantes e de governantes sem o mínimo sentido da realidade. A dor inútil que essa gente espalhou é enorme. Como salientava o Expresso deste fim-de-semana, os 23,8 mil milhões popupados em medidas de austeridades apenas diminuíram pouco mais de 6 mil milhões no défice do Estado. As políticas do governo e da troika destruíram 17 mil milhões de euros. É o que se chama brincar às destruições criativas.