sexta-feira, 1 de março de 2013

Coisa descartável


O problema do trabalho e do envelhecimento é um tema profundamente preocupante e que manifesta uma das questões centrais dos nossos dias, aquela que torna evidente a natureza absurda das sociedades que estão a ser construídas. A contradição é simples. As empresas, movidas pela concorrência, querem, e estão a conseguir, libertar-se dos trabalhadores mais idosos. Pessoas com pouco mais de 40 anos começam a ser vistas como peso morto e incapazes de dar o rendimento que a economia concorrencial exige. Por outro lado, os sistemas de aposentação exigem que as pessoas se reformem cada vez mais tarde. Sendo os subsídios de desemprego efémeros, a pergunta que se faz é simples: o que vão as pessoas sem trabalho, cada vez em maior número, fazer? Vão viver até à reforma com um rendimento mínimo garantido? Vão tornar-se pedintes e sem abrigo? Vão morrer à fome? Vão ser executadas por crime contra os mercados? 

A economia foi uma criação humana e tinha como finalidade servir as pessoas, responder às necessidades destas, permitir-lhes que elas vivessem. Antes da economia ser um sistema de trocas num mercado regulado pela oferta e pela procura, ela era a forma de uma casa, de um família, fazer frente às necessidades que a nossa condição de seres vivos impõe. Subjacente a esta realidade, estava a ideia de que o ser humano era a figura central da economia, que esta existia para ele. Aquilo que se passa hoje em dia – e que é a intensificação levada ao paroxismo da tendência geral dos último séculos – é que os homens são meros servidores da economia, puros objectos que se podem descartar quando é mais útil substituí-los por outros mais jovens ou por máquinas. 

Isto é o sintoma de uma profunda crise. Mas esta crise não é económica ou política. É uma crise espiritual, uma crise que reflecte a perda de sentido do próprio homem, o fim da sua dignidade. Na nossa tradição ocidental, a dignidade humana tinha duas fontes. O homem era digno, segundo a religião, pois era feito à imagem e semelhança de Deus. Segundo a filosofia, o homem era digno pois era dotado de razão e, por isso, capaz de seguir os seus próprios fins. Com a erosão da religião cristã e a transformação da razão em mero instrumento de cálculo, o homem de filho de Deus ou de ser racional autónomo transformou-se numa mera coisa animada. Retomando um dos temas com que iniciei, há muito anos, as crónicas neste jornal, pode-se dizer que vivemos numa era pós-humana, a era em que a humanidade, espiritualmente cega, se está a tornar, para si mesma, coisa descartável.