sábado, 23 de março de 2013

Meditações dialécticas (1) - O drama da filosofia

Alfonso Parra Domínguez - Realidad dialéctica (1977)

Se estamos a fazer o retrato da verdadeira e última estrutura da realidade, o esquema canónico é para nós o esquema austero que não conhece citação que não seja directa, e que não conhece atitudes proposicionais para além das constituições físicas e do comportamento dos organismos. (Willard O. Quine, Word and Object)

Quine estabelece uma conexão entre a verdadeira e última estrutura da realidade e as constituições físicas e comportamentos dos organismos, isto é, aquilo que pode ser dado na experiência empírica. Este esquema austero, como é designado, faz do limite da capacidade de receber informações empíricas o limite da realidade. Nada nos garante, porém, que a realidade última ou a sua estrutura tenham mesmo uma constiuição material que afecte a nossa sensibilidade. Foi este sentimento - o de uma realidade não captável pelos sentidos - que conduziu o homem à arte e à filosofia. 

A imaginação e a razão - naquilo que Kant criticou como uso dogmático - sempre sentiram que a sua tarefa não era conformar-se aos dados empíricos, às limitações da nossa sensibilidade, mas aventurar-se no não visível, no não sensível. O drama que aterroriza os filósofos reside aqui: por um lado, verem-se confinados à austeridade da informação empírica; por outro, aventurarem-se no não sensível, para além da experiência possível, e cair na razão dogmática. E não há nada mais contrário ao senso comum filosófico do que o dogmatismo. Mas se o dogmatismo contiver em si a dúvida e um princípio crítico?