sexta-feira, 15 de março de 2013

Mudar a matriz

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

A dolorosa situação actual traz com ela uma alteração radical da matriz que dava forma à nossa existência colectiva. Seja o programa do governo e da troika derrotado ou tenha vencimento, arrastando-nos continuamente para uma miséria cada vez maior e tornando a vida absolutamente insuportável, uma coisa tornou-se óbvia. Nada vai a ser como foi até 2008. A matriz social que começou a ser desenhada no primavera marcelista, que foi continuada pelo 25 de Abril de 1974 e intensificada pela adesão à União Europeia, essa matriz não está moribunda, está morta.

As enormes manifestações de 2 de Março foram as grandes exéquias fúnebres dessa matriz. O aspecto dorido de muitas participantes indicava isso mesmo. Não estou a dizer que a morte dessa matriz seja uma coisa boa. Ninguém gosta de ver morrer alguém que ama. Mas quando morre, o nosso desgosto pessoal é irrelevante para alterar a situação. Que matriz foi essa que morreu? Foi aquela que se manifestou ao transformar-se o Estado na esperança secreta de todos nós, trabalhadores, empresários, artistas, banqueiros, etc. Esta confiança no Estado foi a face visível de um descomprometimento geral da sociedade portuguesa com a vida e o bem tanto comum como, muitas vezes, privado.

Temos um problema pela frente: como vamos sair, agora que o Estado traiu a esperança que nele fora depositada, do enorme sarilho onde nos encontramos? Julgo que ninguém sabe, a começar pelo governo e a acabar na oposição. Haverá quem julgue que a liberalização pura e dura será a saída. Outros pensarão que o morto pode ressuscitar. Na verdade, a liberalização pura e dura levar-nos-á a uma miséria galopante, enquanto a esperança da ressurreição da velha matriz, mesmo em tempo de Quaresma, é uma pura ilusão.

Talvez houvesse uma possibilidade de encontrar um caminho que diminuísse a dor que a mudança matricial está a produzir. Esse caminho implicaria que os portugueses soubessem claramente a situação em que se encontram, que percebessem que o estado geral é muito idêntico ao da economia de guerra. Implicaria que estivessem dispostos a um aumento drástico do seu poder de iniciativa e da sua capacidade de solidariedade. Por fim, necessitaria de uma classe política – ou de uma direcção política – que, alicerçada no conhecimento da realidade nacional, conseguisse estabelecer entre todos nós um pacto para enfrentar o estado de guerra em que nos encontramos. Alguém sério e preparado que governasse para todos e não apenas para alguns. Talvez seja pedir o céu na terra. O mais provável é termos direito apenas a um inferno sem fim.