quarta-feira, 6 de março de 2013

O enigma da liberdade

Edvard Munch - Ansiedade

A superioridade moral do sistema liberal na política e na economia, que deste modo (com a derrocada dos regimes comunistas) se evidenciou, não provoca, no entanto, nenhum entusiasmo. É demasiado grande o número de pessoas que não partilham os frutos desta liberdade, ou mesmo perdem qualquer liberdade: o desemprego torna-se novamente um fenómeno de massas; o sentimento de não ser necessário, da inutilidade, atormenta os homens não menos que a pobreza material. A exploração sem escrúpulos pratica-se cada vez em maior escala, o crime organizado faz uso das oportunidades do mundo livre, e no meio de tudo vagueia o fantasma do sem-sentido. [Joseph Ratzinger, Freiheit und Wahrheit (Liberdade e Verdade), 1995]

Estava-se em 1995, ainda mal tinham terminado os ecos da Queda do Muro de Berlim e da implosão do comunismo. Nessa altura, o liberalismo parecia ter-se tornado uma evidência universal. Em 1992, Francis Fukuyama tinha escrito O Fim da História e o Último Homem, onde considerava a democracia liberal e capitalismo o coroamento da história da humanidade. Em 1995, a conversão dos intelectuais e das classes políticas europeias a esta nova evidência davam ainda passos muito tímidos, embora decisivos. O diagnóstico de Ratzinger é, porém, demolidor. Não é o chefe de um partido comunista que está a falar. Deve ter havido chefes comunistas europeus muito mais brandos com o liberalismo do que o agora ex-Papa. Muito do que está aqui a ser dito por Ratzinger só nos últimos anos se tornou manifesto para muita gente.

A pergunta que se pode colocar é a seguinte: por que razão a liberdade - que se manifesta no sistema liberal - não provoca qualquer entusiasmo? Ratzinger faz uma fenomenologia das razões de ausência de entusiasmo: desemprego em massa, sentimento de inutilidade das pessoas, pobreza material, exploração sem escrúpulos galopante, crime organizado, o fantasma do sem-sentido. O interesse desta descição fenomenológica dos efeitos do liberalismo reside na conexão - uma assustadora conexão - entre a liberdade - entendida segundo o credo liberal - e a ausência de sentido na vida dos homens, conexão que é mediada pelos fenómenos de empobrecimento produzidos pela economia liberal.

O problema levantado por Ratzinger é terrível e toca num dos valores essenciais dos nossos tempos, a liberdade. Por que motivo a liberdade, tal como a entendemos no Ocidente, conduz ao niilismo? O que há de obscuro nela que torna os homens indiferentes aos outros homens e produz sociedades onde o ser humano está a mais? A potência criadora da liberdade é enorme. Contudo, essa potência parece operar, ao mesmo tempo, a segregação, a criação de divisões, o aniquilamento do outro. O que o texto de Ratzinger propõe ao pensamento é que este pense essa obscuridade que a liberdade traz consigo. Este é um dos problema filosóficos centrais do nosso tempo. Na verdade, a liberdade que parece a coisa mais conhecida não passa de um enigma posto por um tempo que, não sem propósito, podemos considerar esfíngico.