sexta-feira, 29 de março de 2013

Sócrates, o retornado


Sócrates retorna à intervenção pública e política porque quer ser Presidente da República. Contrariamente ao que muitos pensam, Sócrates tem algumas possibilidades de conseguir realizar o seu objectivo. Recorde-se o discurso de derrota nas últimas eleições. Foi, técnica e politicamente, um excelente discurso. Não havia ressentimento nas palavras nem se acusava ninguém. Tinha ido à luta e tinha perdido, nada mais natural em democracia. O discurso era o primeiro passo para o novo objectivo. 

O segundo passo foi retirar-se. A vozearia contra ele teve o silêncio como resposta. A única intervenção que fez foi para dizer o óbvio, a dívida não se paga mas gere-se. Sócrates deixou que o governo e Passos Coelho se enterrassem, deixou que os portugueses fizessem a experiência do que a direita tinha para dar. O terceiro passo vai começar na televisão. 

Porquê agora e não daqui a uns meses? Este é o momento em que toda a gente já percebeu que as opções do governo falharam. Toda a gente compreendeu que o ir além da troika de Passos Coelho e de Gaspar está a destruir o país. Sócrates não deixará de lembrar aos portugueses que foi obrigado a pedir o resgate porque o PEC IV foi derrotado por uma coligação entre a direita e esquerda radical. Estando isso percebido, Sócrates posiciona-se para ocupar o lugar de candidato na área socialista. 

Terá Sócrates hipóteses de chegar à Presidência? Sócrates tem muitos anticorpos à direita e à esquerda. Mas o caminho para Belém está mais aberto do que parece. O descalabro do governo, os silêncios de Cavaco, a impotência de Seguro, o desprezo com que os portugueses continuam a ver o PCP e o BE e o aturdimento geral ajudam. Partido Comunista e Bloco de Esquerda não têm qualquer hipótese de apresentar um candidato ganhador. Mesmo que odeiem Sócrates, como odiavam Soares, quando chegar à hora da verdade terão de engolir o sapo. Restam os verdadeiros concorrentes ao lugar, Guterres, na área socialista, e Durão Barroso, na direita. 

Sócrates tem uma vantagem sobre eles. Dirá que nunca fugiu às dificuldades, que não trocou a governação do país por um lugar ao sol no estrangeiro. Dirá que sempre deu a cara pelas suas ideias e opções. Depois, há que distinguir entre a opinião publicada, hoje muito desfavorável, e a opinião pública, mais maleável e desorientada. A essa, onde residem os votos, Sócrates vai começar a trabalhá-la semana a semana. Por muito que não se goste da personagem, é preciso perceber que Sócrates ainda não está morto, não tem medo da política e o mito de D. Sebastião está agora do lado dele. 
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P.S. O artigo foi escrito antes da entrevista de Sócrates à RTP. O facto de o ex-primeiro-ministro ter dito que não era candidato a nada não altera a convicção de que ele quer ser candidato presidencial. A tese não é original, mas explica a razão por que ele se dispõe a enfrentar todas as resistências negativas que a sua pessoa gera.