terça-feira, 26 de março de 2013

Um problema de desejo

Emil Nolde - Couple and Redheaded Child

A Europa está infectada por uma estranha falta de desejo de futuro. Crianças, o nosso futuro, são percebidas como uma ameaça ao presente, como se elas tirassem qualquer coisa às nossas vidas. As crianças são vistas, de preferência, como um compromisso, e não como fonte de esperança. Há uma clara comparação entre a situação actual e o declínio do Império Romano. Nos últimos tempos, ainda funcionava como uma grande estrutura histórica, mas na prática ela apenas subsistia segundo modelos destinados a falhar. A sua energia vital estava esgotada. (Joseph Ratzinger (2006), Without Roots - The West, Relativism, Christianity, Islam. Kindle Edition, loc. 664-668)

O interesse deste diagnóstico de Ratzinger, efectuado já no ano de 2004, não reside na comparação entre a moderna Europa e os dias finais do Império Romano - comparação que se banalizou e, nessa sua trivialidade, deixou de ter qualquer efeito sobre as forças de preservação e de conservação do espírito europeu - mas na combinação entre os temas do desejo e do futuro. Uma leitura apressada colocará o problema do futuro na questão demográfica e no sentimento de que as crianças são percebidas como meros compromissos que inibem a liberdade individual e não como fonte de esperança. Isso não é falso, mas não capta o essencial do texto.

O diagnóstico de Ratzinger coloca o problema do declínio europeu numa perturbação do desejo. Esta perturbação nem sequer é já uma parafilia, um desvio do desejo para objectos estranhos à normal orientação desse mesmo desejo, mas numa falta de desejo, numa estranha falta de desejo. Este conceito de desejo é esclarecido na parte final do texto citado, aquando da comparação com os tempos últimos do Império Romano. Esta falta de desejo significa que a energia vital está esgotada, como se o desejo fosse um excesso criador que, agora, desapareceu. De forma absolutamente inesperada, o então cardeal Ratzinger ecoa a grande crítica nitzscheana à cultura ocidental, à sua perda de vitalidade, de que o platonismo e o cristianismo (um platonismo para o povo) seriam, segundo Nietzsche, sintomas.

O essencial do texto citado reside na compreensão do homem a partir da dinâmica do desejo. Se compreendêssemos, à luz da psicanálise freudiana, o desejo como falta, a expressão de Ratzinger seria contraditória pois assinalaria não um momento de crise mas de plenitude, pois seria a falta de uma falta, seria a afirmação de que nada nos faltaria. Se a leitura do conceito de desejo for mediada por Deleuze e Guattari, o desejo não será uma carência mas uma disponibilidade para a criação, disponibilidade para responder a um encontro. Ora foi isso que desapareceu na Europa, a disponibilidade para o encontro e nesse encontro recriar a vida e abrir-se ao futuro. Os europeus tornaram-se indisponíveis e, desse modo, cortaram a ligação com o futuro. 

Se a crise demográfica e a forma como se encara a vinda de uma criança são exemplos paradigmáticos dessa falta de desejo e do corte com o futuro, eles não são os únicos. A crise das dívidas soberanas e a actual tipologia das relações entre os parceiros europeus são marcadas por essa mesma indisponibilidade. O que se passa, no âmbito da política europeia, é que já não há um desejo de futuro. Os países do norte e do centro estão cansados dos do sul e estes já não suportam o moralismo protestante dos do norte e centro. Nenhuma parte deseja a outra e a todos falta energia vital. O excesso, que todo o verdadeiro desejo representa, foi substituído pela carência e pela penúria. Um problema de falta desejo, essa infecção que cada vez mais parece ser fatal.