segunda-feira, 4 de março de 2013

Uma arte falsa

Pablo Picasso - Bacanal (1955)

"La carencia de rigor (en las obras) ha permitido que el vacío de creación, la ocurrencia, la falta de inteligencia sean los valores de este falso arte, y que cualquier cosa se muestre en los museos" (Avelina Lésper).

A análise crítica de Avelina Lésper sobre o estado da arte contemporânea parece certeiro, embora falhe uma das questões fundamentais que marca a arte hoje em dia. Esta é a da sua permanente auto-questionação, o que conduz os artistas a não quererem ser artistas e a não qualificar o seu trabalho enquanto arte, ou fazê-lo de uma forma paródica. O estado a que se chegou é obscuro, não apenas pela falta de rigor dos artistas e pela falsificação a que se entregou a produção estética. Não é apenas uma questão de ausência de domínio técnico ou de trabalho persistente. É obscuro também porque aquilo que constituía uma unidade espiritual, a partir do Renascimento, entrou em desagregação, tornando-se cada área do espírito humano autónoma, sujeita apenas a regras vindas de si mesma. Esta autonomia que durante muito tempo teve um poder criativo que é difícil de negar chegou, também ela, a um beco sem saída. Obras e público afastam-se e a arte é agora o pasto de especialistas e críticos. Curiosamente, como sublinha Lésper, a autonomização da arte conduziu à situação paradoxal das obras necessitarem do discurso para estabelecerem algum contacto com o público, um discurso que tenta introduzir um princípio de objectividade nos universos puramente subjectivos dos produtores de arte. A situação da arte, contudo, não é diferente da de outros ramos. Tendo sido a razão reduzida à razão científica, as várias esferas da actividade espiritual do homem perderam não apenas a sua unidade como a relação última que mantinham com um sentido ainda descortinável pelo homem. Tornaram-se pós-humanas.