quarta-feira, 17 de abril de 2013

Cavaco e os tempos de cólera

Bartholomeus Spranger - Alegoría de la Justicia

As pessoas protestam sempre muito pelos longos silêncios do Presidente da República. Lastimam a sua tendência para a mudez e para a gestão discreta dos assuntos. Fazem, porém, muito mal. Quando Cavaco fala, logo se reconhece que seria melhor que estivesse calado. Vejamos o seguinte dito pronunciado perante os juízes colombianos e inspirado na leitura de Maria Cavaco Silva do livro de García Marquez Amor em tempos de cólera: “Em última instância, a ela (justiça) compete evitar que os ‘tempos de crise’ se convertam em ‘tempos de cólera’. Os tribunais são, pois, um pilar fundamental de qualquer processo de pacificação”.

Isto parece uma banalidade, mas não o é. Estamos perante uma afirmação que retrata toda uma actuação e um pensamento. Por certo que Cavaco Silva não poderia deixar de ter a situação portuguesa como pano de fundo a inspirar as suas palavras. Ora a responsabilidade primeira e última de, em tempos de crise, evitar tempos de cólera não é da justiça mas da acção política. Uma política sábia, equilibrada e que vise o bem comum encontrará, mesmo nos tempos de crise, o caminho para evitar que a cólera chegue. Quando a cólera chega aos tribunais, então já estamos no domínio da repressão da violência. Esta afirmação é todo um programa de impotência política e de desresponsabilização dos governantes. Para que serve um Presidente da República que diz coisas destas? Mais valia que estivesse calado como a Rainha de Inglaterra