quarta-feira, 3 de abril de 2013

Meditações dialécticas (5) - Coreia do Norte e a marcha da razão moderna

Pablo Picasso - A guerra (1952)

Há sempre nas encenações militares do regime da Coreia do Norte qualquer coisa que me deixa absolutamente perplexo. Não é que essas encenações sejam, em qualidade, diferentes das efectuadas por outros regimes, sejam eles totalitários ou democráticos. Mas na Coreia do Norte a encenação é levada ao paroxismo. O que é encenado naqueles imensos desfiles com milhares de soldados/figurantes? O que é encenado é a própria razão. Não há, entre as instituições humanas, nenhuma que exija e exiba a razão mais profundamente do que a instituição militar.

Sabemos - felizmente, por leitura e não por experiência directa - que o combate propriamente dito é uma coisa infernal de onde a razão parece ter sido expulsa. Mas toda a coreografia dos exércitos que marcham, toda a orgânica racional de um desfile, todo o carácter mecânico com que os homens - e também, hoje em dia, as mulheres - desfilam escondem a dura realidade do combate e aquilo que ele tem de acidental e irracional, fruto do arbítrio, com a capa de uma racionalidade que dir-se-ia iluminista.

A importância do regime norte-coreano não está em ele ilustrar a irracionalidade dos homens, a obediência cega a líderes de legitimidade duvidosa, a paranóia de uma elite governante. O que o regime de Pyongyang nos mostra é patologia que vive escondida na razão iluminista, uma razão herdeira do mecanicismo do século XVII e que se julga a única luz no mundo. O que a Coreia do Norte torna claro é a irracionalidade que habita em todos os projectos de uma razão autónoma, sejam eles totalitários ou liberais. A experiência da razão moderna, dessa razão que se libertou daquilo que a limitava e lhe impunha fronteiras e freios nas aspirações, é a dolorosa experiência de patologias sem fim, sejam elas provenientes dos estados socialistas ou dos regimes liberais. Quando observo na televisão um desfile das tropas norte-coreanas, não vejo apenas uma coreografia, vejo sempre a marcha inexorável da razão moderna em direcção ao abismo.