domingo, 7 de abril de 2013

Meditações Taoistas (16)

Anónimo chinês - Exames em ciência militar


O homem santo não acumula bens.
Quanto mais faz aos outros tanto mais tem para si;
quanto mais dá aos outros tanto mais é em si.
O curso do céu beneficia sem prejudicar;
O curso do homem santo atua sem disputar.
Lao Tse, Tao Te King, LXXXI

Fora um antigo combatente. Entrara para o exército ainda muito novo e fizera, múltiplas vezes, a guerra. A morte dormiu ao seu lado centenas de noites e sorria-lhe quando se levantava, mal o Sol despontava  na madrugada. Conheciam-se bem. Ele observara-a a actuar inúmeras vezes. Espantava-o sempre como ela se orientava na balbúrdia do campo de batalha, como era precisa na escolha dos que elegia para que a acompanhassem ao reino das sombras. Vira-a muitas vezes caminhar direito a si, para se desviar no último instante, escolhendo outra vítima para a sua sede insaciável. Olhava-a também quando saía das suas armas e se dirigia para o campo inimigo para colher os frutos amadurecidos para a viagem. Respeitava-a e temi-a, sentia admiração.

Admirava-a na isenção e na independência, na distribuição da dor e na secreta precisão com que administrava o seu reino. Um dia, em tempo de paz, estando a meditar sobre os seus encontros com a velha ceifeira, percebeu que já não a temia. Foi uma iluminação. Agora que o temor, silencioso e secreto que ardia no fundo de si, fora debelado, compreendeu que não tinha sentido servi-la. A guerra, a luta, qualquer conflito, ínfimo que fosse, perdera o sentido. Abandonou o exército e começou uma longa itinerância. Aprendera muito, nas guerras em que participara, sobre a vida e os homens. Munido desses conhecimentos, procurou os lugares mais pobres e as gentes que aí viviam. Sentia muitas vezes, nesses lugares, o odor da velha companheira, mas não ficava impressionado. Ajudava quem precisava, dava-lhes conselhos, se lhos pediam, e trabalhava com a força dos seus músculos e a inteligência treinada para resolver as mais difíceis situações.

Quando os homens lhe agradeciam ou tentavam pagar-lhe, dizia-lhes, ele que viera de uma família aristocrática, que era um deles e que estava ali para os servir. Bastava que aprendessem com ele a manter uma casa, a abrir um caminho, a cuidar das crianças e dos animais. Fundamentalmente, que evitassem a guerra e os conflitos entre eles. O mundo ficaria agradecido e ele sentia-se pago pelos pequenos gestos. Os dias e os anos foram passando, mas ele não mais abandonara a vida que escolhera. Não pedia nada, não pregava a salvação do mundo, não tinha nada para vender. A voz perdera o tom de comando com que nascera e era agora um rio tranquilo. O corpo continuava robusto como nos velhos dias, mas o rosto tornara-se imune aos efeitos do tempo. Olhavam-no e não sabiam se ele era muito jovem ou terrivelmente velho. Ao primeiro contacto, ficavam um pouco temerosos, mas mal ouviam a sua voz uma luz silenciosa iluminava-os. Era um deles.