sexta-feira, 12 de abril de 2013

O amante da pobreza

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

O Papa Francisco ama os pobres mas parece não gostar da pobreza, acha que os poderes do mundo deveriam eliminá-la. Francisco, porém, é um jesuíta, e há que desconfiar dos jesuítas. Intelectuais, muitas leituras, cursos superiores em demasia. Saber filosofia e teologia dá a volta ao miolo das pessoas. Em Portugal, nós temos um homem muito mais radical do que Francisco. Claro que esse homem é pouco mais que inculto, apesar de ter um curso superior.  Ele não só ama os pobres como adora a pobreza. Gosta tanto dos pobres que não quer que eles diminuam. Pelo contrário, faz tudo o que está ao seu alcance para aumentar o número dos que têm oportunidade para ser pobres.

Desde que chegou à governação, Passos Coelho tem-se batido com denodo e valentia para que a pobreza alastre no país. Desse ponto de vista, é um excelente governante, ainda melhor que o anterior, o retornado Sócrates. Sócrates fazia crescer os pobres mas tinha má consciência. Passos Coelho, não. Adora o que faz. Imagine o leitor que Passos Coelho tinha feito um orçamento do Estado inconstitucional. Toda a gente gritava que era inconstitucional, mas Passos Coelho fingia que não ouvia e persistia no caminho. Um homem teimoso e com pouca cultura jurídica, dirá o leitor. Talvez, mas fundamentalmente Passos Coelho apresentou aquele orçamento para que fosse chumbado. Não foi por maldade, mas por amor aos pobres e à miséria.

Estou a exagerar? O normal seria, perante o chumbo das normas inconstitucionais, que um primeiro-ministro que não gostasse de pobreza dissesse que iria pensar como resolver o problema encontrando respostas equilibradas que distribuíssem o mal – mal que ele causara com um orçamento deficiente – por todas as freguesias, pagando as mais ricas um pouco mais que as outras. Contudo, Passos Coelho ama os pobres e a pobreza e viu no chumbo do orçamento uma janela de oportunidade, que ele próprio criara com a sábia inclusão de normas inconstitucionais. Veio no domingo à televisão e disse que já ordenara cortes na saúde, educação, segurança social e empresas públicas. Estas medidas significam o quê? Um acto de amor aos pobres. Com elas, Passos Coelho vai concretizar o seu sonho de amante da pobreza. Torna os actuais pobres ainda mais desvalidos e cria mais umas centenas de milhares de novos pobres. O chumbo do Constitucional veio mesmo a calhar. Passos Coelho já acendeu uma vela de agradecimento na capela do palácio Ratton. Não vai faltar em Portugal pobres e miséria para que Passos Coelho possa derramar o seu virtuoso amor à pobreza. Pobreza dos outros, claro.