domingo, 14 de abril de 2013

O fim das ilusões

Edvard Munch - Workers Returning Home (1913-15)

Ocorreu no nosso país, em especial durante o período de maior desafogo económico - entre as décadas de 1980 e 1990 -, uma espécie de movimento subterrâneo, enraizado na esfera socioeconómica mas revestido de uma subjectividade e de um efeito de status, uma aura de sedução, que induziu amplos sectores sociais oriundos dos estratos baixos do funcionalismo ou do operariado manual a projectarem-se num horizonte ilusório de possibilidades de ascensão, ao ponto de acreditarem que, com a inserção num estilo de vida urbano, o acesso a um trabalho «limpo», a um emprego estável e seguro e a uma (imaginada) possibilidade de carreira profissional, já estavam instalados no campo da classe média. (Elísio Estanque, A Classe Média: Ascensão e Declínio, p. 101/2)

Perguntamo-nos muitas vezes a origem dos sarilhos em que estamos metidos. É uma pergunta inevitável perante o desmoronar de um modo de vida recente mas que se pensava eterno. Ora a questão central está respondida na longa citação feita do livro do sociólogo de Coimbra, Elísio Estanque: a emergência, nos sectores sociais oriundos dos estratos baixos, de uma subjectividade ilusória, marcada como diz o autor, por um efeito de status e uma aura de sedução. O efeito dessa nova subjectivização foi, na época, muito bem captado, embora de forma apolegética, por Pacheco Pereira ao explicar as razões porque parte importante do eleitorado do PCP, na margem esquerda, transferira o seu voto para o prof. Cavaco Silva. No fundo, era a busca do status e o efeito da aura de sedução.

Na segunda parte dos anos 80 e nos anos 90, nos consulados de Cavaco Silva e de António Gueterres, com maior incidência no primeiro, foi criada nas pessoas, por motivação eleitoral, uma ilusão sobre a sua real situação. Essa ilusão, é preciso não esquecer, foi alimentada com os dinheiros vindos de Bruxelas. O dinheiro parecia fácil e quem torcia o nariz ou chamava a atenção para o logro que se estava a construir era apelidado de Velho do Restelo e olhado com desprezo. Os sectores produtivos, já de si frágeis, foram desmantelados, criando-se enormes bolhas de comércio e serviços, as quais, pela sua natureza urbana (trabalho "limpo", como salienta Elísio Estanque), davam um toque de glamour paroquial e bacoco à pobreza que, na verdade, se ocultava no baço brilho de uma vida social vazia e deprimente.

Isto não significa que a narrativa, para usar uma velha expressão que o público descobriu agora na boca do engenheiro Sócrates, do actual governo e da sua corte sobre o termos vivido acima das nossas possibilidades seja exacta. As elites políticas, nomeadamente o cavaquismo, e a sua influência até no PS, bem como a banca, fundamentalmente no início deste século, geraram um clima que ocultava à generalidade das pessoas a real situação do país, a sua fragilidade económica e os riscos enormes que as pessoas corriam. Os anos oitenta, noventa e a década passada até à crise de 2008 foram tempos de liquefacção da economia e da vida social. O desaparecimento do trabalho "sujo" (trabalho produtivo) trazia consigo, sem que as pessoas o suspeitassem, o fim das antigas relações laborais e, apesar da conflitualidade existente, do compromisso interclassista que dominava uma sociedade semi-rural e semi-fordista.

José Gil diagnosticou, em livro célebre e celebrado (Portugal, Hoje - O Medo de Existir), o problema português como o da não inscrição, o da incapacidade de inscrever na realidade os nossos desígnios. A questão, contudo, é mais complexa. O problema começa numa relação ilusória com a realidade, ilusão essa que é transversal à sociedade portuguesa. E é essa ilusão que não tem permitido aos portugueses compreender o mundo onde estamos inseridos e escolher caminhos sólidos para a sua sociedade. É preciso encarar a realidade de frente e encontrar uma relação sólida com o mundo e a vida. Esta nova solidez não significa, contudo, um retorno aos tempos da sociedade fordista. 

Significa antes, a necessidade de fazer frente às grandes clivagens sociais que se desenham já de forma bastante nítida, relembrando a rígida estruturação social ainda existente no Estado Novo, e encontrar um consenso social e político sobre o nosso futuro, onde tudo deve estar em discussão, nomeadamente a presença no Euro, mas também os problemas demográficos, as baixas qualificações dos portugueses, a fragilidade das nossas empresas e a própria atitude perante a realidade. Estamos a viver intensamente a dor como se não houvesse futuro, mas o rasgar do futuro tem de ser feito agora e nas circunstâncias efectivas em que vivemos. O pior que nos pode acontecer, porém, é continuarmos a linha actual de rompimento do que ainda resta do equilíbrio social e criarmos duas sociedades numa só. Somos demasiado poucos e demasiado velhos para podermos dar-nos ao luxo de vivermos numa espécie de guerra civil, ainda que virtual e sem sangue nas ruas. Agora que já perdemos as ilusões, nada pode ou deve ser tabu.