terça-feira, 21 de maio de 2013

Metamorfoses da memória

Fernand Khnopff - Memórias (1889)

No quadro político e social desenhado na sequência da Revolução francesa, a memória sempre foi uma faculdade ligada à direita, aos sectores ditos reaccionários e saudosistas. Por exemplo, um livro - ou filme - como O Leopardo, de Giuseppe Tomasi de Lampedusa, lida com esse momento em que, com o triunfo da burguesia, a vida aristocrática se começa a transformar em pura memória. Don Fabrizio, príncipe de Salina, simboliza, com a dignidade de um velho senhor, já essa memória de uma antiga ordem que desaparece. A memória era o recurso nostálgico que restava a uma aristocracia destroçada pela iniciativa das classes mercantis. Era sempre uma memória reactiva e, segundo o linguajar da vida política do século XX, reaccionária, uma memória de uma ordem do mundo que fora desfeita pelas revoluções do século XVIII e XIX.

A novidade dos tempos que vivemos reside na mudança de coloração política da memória. A memória, na Europa ocidental, tornou-se uma prerrogativa da esquerda. Os tempos das amplas classes médias, das sociedades europeias reguladas pela combinação dos ideais de liberdade e igualdade, da possibilidade da mobilidade social são tempos que andam, nos dias de hoje, à procura do seu Don Fabrizio. O ideal de uma sociedade equilibrada, da harmonia social, da cooperação interclassista - apesar dos conflitos sociais; estes faziam parte dessa cooperação -, tudo isso está-se a transformar em pura memória, tragado pela voracidade das revoluções tecnológica e financeira e pela dominação incontestada das elites económicas. Pela primeira vez na história, a esquerda política tem um passado que lhe pode servir de ideal regulador e de horizonte nostálgico.

Contudo, a experiência histórica não é favorável a essa reminiscência. A derrota da aristocracia em 1789, apesar de uma efémera restauração monárquica no século XIX, representou o ruir de toda a cosmovisão aristocrática. As guerras napoleónicas foram fatais para os regimes aristocráticos europeus. A primeira guerra mundial, no século XX, liquidou o que restava. A rememoração aristocrática nunca teve peso impulsionador para colocar em questão o novo mundo trazido pela economia de mercado e pela ascensão da burguesia liberal. Também nos dias de hoje é previsível que a memória da sociedade europeia da segunda parte do século XX seja impotente para restaurar sociedades politicamente equilibradas e socialmente menos injustas. A memória metamorfoseia-se, mas nunca deixa de ser impotente perante o activismo das elites económicos.