sexta-feira, 24 de maio de 2013

O ajustamento

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Nos últimos dias assistimos a uma reviravolta no enredo da tragicomédia da crise das dívidas soberanas. Os alemães decidiram apontar o dedo ao FMI, ao BCE e, acima de tudo, à Comissão Europeia, em especial a Durão Barroso. Segundo os responsáveis alemães, não só os programas estão mal desenhados pela troika, como a Comissão Europeia é demasiado rígida no cumprimento de certas regras. Serão então os alemães nossos amigos? Para responder a esta questão, devemos perguntar se a posição crítica alemã se refere a questões de método ou a questões de substância. 

A posição alemã diz respeito ao método das políticas de austeridade e não ao conteúdo. Para os alemães a metodologia está errada pois desincentiva o investimento e o crescimento económico. O conteúdo, todavia, está correcto. Qual é o conteúdo? Trata-se fundamentalmente do ajustamento da economia à situação global em que vivemos. Ajustamento é uma metáfora terrível. Nessa palavra nós pensamos que alguma coisa se adequa a outra (que a economia dos países periféricos se adequa à economia global) e, ao adequar-se, torna-se justa. Por trás de todo este drama, há uma ideia de justiça muito peculiar. É justo aquilo que está de acordo com a verdade do mercado global. 

Qual a verdade do mercado global? Em termos gerais – pois a realidade nunca é a preto e branco – o trabalho industrial (do têxtil à metalurgia, etc., etc.) é produzido em lugares onde a desregulação do mercado de trabalho permite situações de quase escravatura. O trabalho altamente especializado e que necessita de grande incorporação técnico-científico está bem guardado nas grande potências, entre elas na Alemanha. Se há uma coisa que aprendemos em Portugal, neste últimos anos, é que, do ponto de vista económico, não é relevante o investimento feito em educação técnico-científica da população, se não há empresas que absorvam as novas gerações altamente qualificadas. 

O que resta para os países periféricos da Europa (do sul, mas não só)? Resta ajustarem-se e competirem com os paraísos de mão-de-obra quase escrava. Resta desregularem completamente o mercado de trabalho e eliminar os direitos sociais dos seus cidadãos. Nisto, a Alemanha não retrocede. E não retrocede porque não vai, obviamente, ceder as suas empresas altamente especializadas a outros países. Por outro lado, não apenas a Alemanha está a tirar proveito financeiro das crises dos países do sul, como tem nestes um reservatório de mão de obra especializada, formada à custa desses países, para as suas empresas. Este é o verdadeiro sentido do ajustamento e da contestação alemã à troika.