quinta-feira, 30 de maio de 2013

O grande triunfo da produtividade

Alexandre Antigna - El día del Corpus Christi (1855)

Comemoramos hoje o grandioso dia do nosso triunfo económico. O ano passado, um povo de indigentes habituado à boa vida e a viver acima das suas possibilidades, entregava-se a essa estranha coisa de deixar de trabalhar por causa do dia do Corpo de Deus, um dia santo de guarda. Naqueles dias, Passos Coelho e Vítor Gaspar, cheios de entusiasmos reformadores e desejosos de pôr a plebe a bulir, olharam para a lista de feriados e pensaram «vamos acabar com esta rambóia». Se bem o pensaram, melhor o fizeram. «Precisamos de produtividade e só há produtividade se acabarmos com os feriados.» 

Sentaram-se no gabinete do ministro das Finanças e, entre a consulta de uma folha de excel, cheia de gráficos, e a lista de feriados, deram com o feriado do dia do Corpo de Deus. Gaspar disse logo «acabamos com este». «Com este?» resmungou o primeiro-ministro. «Esse é da Igreja, não pode ser. Fui educado como católico. Proponho que se acabe com a abrilada, aquela coisa dos cravos faz-me comichão ao nariz e ofende as memórias dos outros tempos.» Gaspar, bocejou, e lentamente ciciou «deixe lá o 25 de Abril, a gente liquida-o em três tempos, mas aqui temos um problema sério.»  Coelho olhou o horizonte, espreguiçou-se e deixou cair «Um problema sério?» O ministro das finanças sorriu, encolheu os ombros, e continuou «Sim, um problema teológico sério, uma heresia e a prova de que se inventa tudo para não trabalhar», fungou um pouco, e, antes que Coelho dissesse alguma coisa, acrescentou, de forma inexpressiva e lenta, «Um problema teológico mesmo muito sério». «E qual o impacto desse problema teológico sério no PIB?», questionou Passos Coelho. «Não me faça perguntas de cálculos e previsões, sabe que isso me dá galo, encanita-me. Pior do que isso só o Benfica no fim da próxima temporada». Passos Coelho transpirava e o olhar turvava-se. Que raio, teologia, Benfica. Esta coisa da crise e da troika deve ter-lhe fundido os fusíveis. «Ó Gaspar, explique-se que eu não estou a perceber essa do Benfica e ainda menos a da teologia.» «Eu sei - disse, prazenteiro, o Gaspar e continuou - o Benfica fica para o ano, a teologia é que tem, agora, impacto económico. Eu explico. Não pode haver um feriado do Corpo de Deus!» Disse com veemência e quase soltou um palavrão. «Não? Que mal tem o Corpo de Deus?», abespinhou-se, muito homem, o primeiro-ministro. Gaspar não se amedrontou e disparou: «Não andou na catequese, não foi às aulas de Religião e Moral? Não lhe explicaram que Deus era invisível e incorpóreo?» O primeiro-ministro coçou a cabeça e o nariz, abriu a boca e tornou a fechá-la. Depois de passar com a língua nos lábios murmurou «Não estou a perceber, não terá estudado isso numa cadeira opcional de Economia que eu não fiz?» Gaspar, senhor já da vitória, sorriu, tamborilou com os dedos na mesa e rematou de trivela «Se Deus é incorpóreo não tem corpo. Se não tem corpo, não pode haver um Corpo de Deus e se não há um Corpo de Deus, não pode haver um feriado do Corpo de Deus. Percebeu?» Entoou, quase exaltado, para depois acrescentar «Ó homem mexa-se, telefone lá para o Cardeal ou para o gajo que manda nos bispos. Diga-lhe que são uns herejes, que Deus não tem corpo. Acabem lá com o feriado e ponham o rebanho a trabalhar, que eu preciso de salvar a produtividade.» Sorria, enquanto o primeiro-ministro procurava, confuso, o telemóvel.