segunda-feira, 13 de maio de 2013

Trabalho, verdade e moralidade

Munir uz Zamna-AFP (Público)

Os protestos dos trabalhadores têxteis do Bangladesh e o encerramento por tempo indeterminado de 300 fábricas, bem como o nível salarial absolutamente miserável fazem-nos recuar para os primeiros tempos da Revolução Industrial e do nascimento de uma economia predominantemente capitalista. Eric Hobsbawm, no seu livro a Era das Revoluções, refere que a natureza do espírito capitalista reside em comprar nos mercados mais baratos para vender nos mais caros. O problema está na mercadorização do trabalho humano. A consideração deste como mera mercadoria implica que seja procurado onde for mais barato, com os resultados habituais, de exploração, miséria e morte. 

Michel Foucault, por seu lado, salienta que o mercado, com o seu jogo da oferta e da procura, é o lugar de veridicção onde se estabelece a verdade do preço de uma mercadoria. Dito de outra forma, não há preços justos mas preços verdadeiros, aqueles que o livre jogo do mercado estabelece. O grande problema surge aqui. Se o trabalho humano é uma mera mercadoria sujeita à verdade do mercado, então as relações laborais não se inscrevem no âmbito do que é justo e do que é bom, moralmente falando. 

O grande ardil da economia de mercado reside em ter encontrado um lugar onde as relações humanos se furtam à apreciação e à avaliação morais. O custo do trabalho humano é verdadeiro ou falso (conforme esteja de acordo ou não com o mercado), não é justo ou injusto. Este estratagema abre o caminho para justificar - sem um arrepio na consciência, pois é um problema de verdade, como os economistas não cessam de fazer notar - todos os Bangladeshs existentes ou a existir.