domingo, 26 de maio de 2013

Um catálogo de perversidades

Paul Klee - Analysis of Various Perversities (1922)

Esta história de uma mulher que trabalha setenta e duas horas por semana e ainda tem de recorrer a ajuda para comer (no Público) ou esta que nos diz que mais de 2000 pessoas dormem nas ruas de Lisboa (no Público) é o retrato da sociedade que criámos. Mas não é apenas a dor de cada uma das pessoas atingidas pela situação (e a grande maioria de nós, de um momento para o outro, pode ser atingido pela miséria, sublinho pela miséria) que é sintoma das múltiplas perversidades sociais que desenharam e implantaram a situação que se vive. Do ponto de vista colectivo, a maior perversidade é a aniquilação da esperança, o roubo de um horizonte, pequeno que seja. A palavra de ordem que anima as elites sociais e políticas parece ser a destruição de qualquer possibilidade de vida digna, a criação de situações onde muita gente se entregará como escrava, a desintegração de qualquer espírito de iniciativa. Os liberais (e os nossos liberais, não o esqueçamos, odeiam a liberdade) que agora pululam por tudo que é televisão e blogue fazem-me rir. Como é possível criar uma sociedade verdadeiramente liberal, fundada na autonomia racional e na livre iniciativa, se a maioria das pessoas está à porta da escravatura? Tudo no Portugal de hoje é feio, é reles, é falso. Portugal é um catálogo infeliz de perversidades monstruosas.